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terça-feira, 23 de novembro de 2021

Enquanto brasileiros comem osso, Guedes diz que não revela seus lucros nas Ilhas Virgens Britânicas por “medo de ser assaltado”

 


Enquanto brasileiros ficam na fila dos ossos nos açougues, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta terça-feira (23), durante audiência na Câmara dos Deputados, que não revela seus lucros de uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal, por “medo de ser assaltado”.

“Você pode ser perseguido por um vizinho, assaltado por um vizinho. Não posso chegar aqui e falar: ‘Brasil, olha tudo que eu tenho. Não pode ser assim”, argumentou o ministro, na comissão especial marcada para que ele explicasse um possível conflito de interesses entre ocupar a posição de chefe da Economia no governo federal e ter uma empresa que lucra com a variação do dólar.

Ele destacou que esses recursos estão à disposição das instâncias pertinentes, por meio de declaração do Imposto de Renda. “Se parlamentares me pedirem, a resposta é não. Agora, se me disserem ‘uma instância pertinente pediu’, será entregue, como sempre foi. Os números estão todos disponíveis. Mas os senhores precisam entender que existe uma coisa chamada privacidade”, ressaltou ainda.

Foi revelado ainda, durante a audiência, que Guedes possui um outro negócio além da offshore, este no Brasil, com rendimento de cerca de R$ 400 mil por mês. A revelação foi feita pelo deputado federal Elias Vaz (PSB-GO).

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Filha de Guedes é diretora de offshore nas Ilhas Virgens e esposa é sócia; informação foi omitida do governo

 

Ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)


Apesar de ter deixado a diretoria de sua conta secreta num paraíso fiscal quando assumiu o cargo de ministro da Economia, em 2019, Paulo Guedes manteve na offshore sua filha, Paula Drumond Guedes, como diretora e sócia e sua esposa também como sócia. As duas informações foram omitidas do Palácio do Planalto.

A denúncia é do deputado federal Elias Vaz (PSB-GO), que vai representar ao Ministério Público Federal a partir das novas informações sobre a offshore das Ilhas Virgens. O parlamentar analisou a documentação encaminhada pelo ministro à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara e descobriu que Guedes omitiu as informações.

Em 2019, quando se tornou ministro, Guedes não apresentou essa informação na Declaração Confidencial de Informações (DCI) exigida pelo governo. Segundo a documentação a que o deputado teve acesso, ele foi diretor de 2014 a 2019 e a filha é diretora desde 2015. 

“Entendo que a empresa está sob suspeita. É no mínimo muito estranho Guedes ter omitido essas informações. Por isso, é importante que o Ministério Público Federal analise o extrato de desempenho dessa offshore para saber se não foi beneficiada por informações privilegiadas que Guedes obteve por ser ministro”, afirma Elias Vaz.

O deputado também explica que vai insistir que Paulo Guedes cumpra a convocação proposta por ele e aprovada pela Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal. “O que tanto Guedes tem a esconder? Se a offshore é legal e não foi privilegiada, como ele alega, por que o ministro está fugindo? Nós não vamos abrir mão do nosso direito de fiscalização parlamentar. E não é só para nós, deputados, que Guedes tem que se explicar, toda a sociedade merece uma satisfação”.

Proibição

Guedes violou o artigo 5º do Código de Conduta da Alta Administração Federal, instituído em 2000, que proíbe funcionários do alto escalão de manter aplicações financeiras que sejam afetadas por políticas governamentais. A proibição não se refere a toda e qualquer política oficial, mas àquelas sobre as quais “a autoridade pública tenha informações privilegiadas, em razão do cargo ou função”. Em janeiro de 2019, cinco anos depois de abrir a offshore e depositar US$ 9,54 milhões, Guedes virou o principal fiador do governo Bolsonaro e assumiu o cargo de ministro da Economia. 

Segundo informações do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, a desvalorização do real na gestão de Guedes fez o ministro ganhar R$16 milhões de reais, fazendo os investimentos subirem para R$51 milhões de 2019 pra cá. “O que ele tem a esconder, por que não vem à Câmara e se explica? Enquanto ele usou informações privilegiadas para lucrar milhões sem pagar imposto, tem brasileiro se alimentando de osso e sebo", afirma o parlamentar.

Com informações da assessoria de imprensa do deputado Elias Vaz

domingo, 3 de outubro de 2021

Oposição vai entrar com ação de improbidade contra Guedes e presidente do BC por offshores

 


O líder da Oposição na Câmara dos Deputados, Alessandro Molon, decidiu apresentar uma ação de improbidade contra Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, no Ministério Público Federal, pelas offshores que Guedes tem e Campos teve em paraísos fiscais (leia mais aqui). A revelação foi feita pelo Pandora Papers, sob a coordenação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês). 

Molon também quer a convocação de ambos à Câmara para prestar esclarecimentos. "É um escândalo, é gravíssimo. Viola frontalmente o artigo 5º do Código de Conduta da Alta Administração Federal e, portanto, deveria levar à demissão do Ministro. Nós, da Oposição, vamos propor a convocação do Ministro e do presidente do Banco Central para prestar esclarecimentos à Câmara dos Deputados e entrar com representação no Ministério Público Federal (1a instância) por improbidade administrativa contra ambos", diz Molon.

Investigação revela offshores de sócios da Prevent Senior, MRV e Riachuelo




Os acionistas de 20 das 500 empresas que mais empregam no Brasil possuem offshores em paraísos fiscais. Segundo investigação, ao todo, 25 acionistas ou donos de companhias como Prevent Senior, MRV Engenharia, Grendene e Riachuelo ianuguraram os negócios com objetivos que foram desde a compra de imóveis e iates até a economia de impostos e a proteção de suas fortunas contra crises políticas e econômicas do Brasil.

 

Uma colaboração jornalística organizada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), investigou, nos últimos meses, milhares dessas offshores, abertas principalmente nas Ilhas Virgens Britânicas, e cujos documentos foram entregues ao ICIJ por uma fonte anônima há cerca de um ano.

 

O resultado da investigação deu origem a uma série de reportagens do Pandora Papers (leia mais aqui). Os brasileiros estão em destaque: com 1.897 nomes, o país é o quinto com a maior quantidade de pessoas citadas na base do Pandora Papers, que conta com pelo menos 27,1 mil offshores.

 

Constam, nesse grupo, os irmãos Andrea, Eduardo e Fernando Parrillo, donos do plano de saúde Prevent Senior; o dono do grupo Guararapes (Riachuelo) e quase candidato à Presidência da República em 2018, Flávio Rocha; os donos da Grendene, Pedro e Alexandre Grendene; o patriarca da família Menin, Rubens Menin, e seus filhos, donos da MRV, do Banco Inter e da CNN Brasil, entre outras empresas; e o dono da Rede D’Or, Paulo Junqueira Moll. Todos eles afirmaram ter declarado às autoridades brasileiras que são proprietários de offshores.

 

No Brasil, é permitido ter offshores, desde que declaradas à Receita Federal e, quando seus ativos ultrapassam US$ 1 milhão, ao Banco Central. De acordo com o ICIJ, "revelar a existência de offshores de ricos e poderosos, mesmo quando não há crime envolvendo a sua criação, é prestar um serviço de interesse público, porque esse é um mecanismo de economizar impostos e proteger patrimônio exclusivo da elite econômica mundial".

 

Parte do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, o Metrópoles, parceiro do Bahia Notícias, solicitou ao Ministério da Economia a lista das 500 empresas brasileiras com a maior quantidade de funcionários. Depois, realizou pesquisa desses CNPJs nas informações societárias públicas da Receita Federal elencou quem são os donos, diretores e conselheiros dessas empresas. Por fim, um último cruzamento identificou quais desses nomes tinham offshores com documentos no acervo do Pandora Papers.

 

Conforme a publicação, as empresas dos brasileiros citados foram abertas por razões diversas, desde a compra de um barco e imóveis até a diversificação de portfólios de investimentos em contas em países como a Suíça e os Estados Unidos.

 

Todos os 70 executivos e empresários foram contatados, seja por meio da assessoria de imprensa, seja por outros canais, para que informassem se declararam à Receita Federal e ao Banco Central a abertura da offshore e explicassem a razão de terem criado as empresas.




sexta-feira, 2 de julho de 2021

Em evento com empresários, Guedes diz que ser rico no Brasil não é vergonhoso, vergonha é não pagar imposto

 


Em evento virtual promovido pelo empresário Abílio Diniz, o ministro da Economia, Paulo Guedes, após ouvir reclamações de empresários sobre a proposta do governo para reformular o Imposto de Renda, disse que estuda reduzir o tributo cobrado das empresas, mas não abrirá mão da alíquota de 20% sobre lucro e dividendos distribuídos às pessoas físicas.

Segundo Guedes, "Ninguém precisa se envergonhar de ser rico. Mas precisa se envergonhar de não pagar imposto sobre dividendos”.  Guedes lembrou que além do Brasil, somente a Lituânia têm essa prática.

De acordo com reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo,  em contrapartida, o ministro vai reduzir a alíquota de Imposto de Renda para as empresas. Pela proposta do governo, entregue na semana passada ao Congresso, a alíquota do IRPJ cairia 5 pontos porcentuais de 25% para 20% em dois anos, metade em 2022 e 2023. 

“Quem não pagava impostos diretamente, ou seja, a classe mais alta que vive de dividendos, vai pagar agora. Aí vai dizer que já pagar por meio da empresa. Não se preocupe, vamos reduzir a tributação da empresa. Não queremos que você pague através da empresa, mas sim pela pessoa física”, afirmou.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Guedes diz que Bolsonaro não deixou claro problema da vacinação por 'infelicidade'

 


Ao comentar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) emergencial, que cria um novo auxílio, o ministro associou a recuperação econômica ao processo de imunização da população.

Nesta sexta-feira (5), o ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou amenizar o discurso do presidente Jair Bolsonaro sobre o processo de vacinação no país. Segundo ele, o mandatário pode não ter deixado clara sua preocupação com a saúde e a imunização da população por "infelicidade".

"Nós não podemos deixar a economia se desorganizar, é muito importante isso. Essa mensagem que o tempo inteiro o presidente tem tentado passar também que, talvez, por infelicidade, não deixou claro o problema da saúde, da vacinação em massa", declarou Guedes, conforme publicado pelo Estadão.

A entrevista dada à imprensa foi sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) emergencial, que autoriza uma nova rodada do auxílio, mas o tema das vacinas, inevitavelmente, acabou surgindo. O texto, aprovado pelo Senado na última quinta-feira (4), deve ser analisado pela Câmara na semana que vem.

"Mas a agonia dele [Bolsonaro] com a economia é a seguinte: se você der o auxílio, chegar lá, a prateleira estiver vazia, todo mundo com dinheiro na mão, a inflação, falta de alimentos… Então temos que manter os sinais vitais da economia funcionando, como fizemos no passado", afirmou o ministro.
Enfermeira aplica dose da CoronaVac, vacina contra a COVID-19, em idoso em São Gonçalo, no Rio de Janeiro
© REUTERS / RICARDO MORAES
Enfermeira aplica dose da CoronaVac, vacina contra a COVID-19, em idoso em São Gonçalo, no Rio de Janeiro

Na quinta-feira (4), Bolsonaro criticou aqueles que têm cobrado que o governo federal compre vacinas contra a COVID-19.

"Tem idiota nas redes sociais, na imprensa, [dizendo] 'vai comprar vacina'. Só se for na casa da tua mãe! Não tem para vender no mundo!", disse o presidente a apoiadores em Uberlândia (MG).

Ao falar sobre o agravamento da pandemia, Guedes defendeu a imunização para ajudar na recuperação econômica diante de uma "tragédia que voltou a nos atingir".

"Isso é a coisa mais importante que nós temos agora. O presidente sempre falou, a economia e a saúde andam juntas. Então, é a vacinação em massa, se não a economia não sustenta, ela volta a cair ali na frente", disse o ministro.


 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Guedes criminaliza reajuste a servidores, mas quer liberar R$ 400 bilhões para bancos



Publicado na Rede Brasil Atual

Sem passar pelo Congresso, Guedes quer remanejar lucros das reservas para o Tesouro.
Foto: Alan Santos/PR
O ministro da Economia, Paulo Guedes, classificou como “um crime contra o país” a derrubada, pelo Senado, nesta quarta-feira (19), do congelamento por dois anos dos salários dos servidores que atuam na linha de frente do combate à pandemia. O governo havia vetado a possibilidade de os R$ 60 bilhões da ajuda federal para estados e municípios serem destinados ao pagamento de funcionários públicos das áreas essenciais.
Ao mesmo tempo, sem passar pelo Congresso, a equipe de Guedes estuda transferir cerca de R$ 400 bilhões dos lucros cambiais do Banco Central para abater parte da dívida pública, o que favoreceria os bancos privados, que detêm grande parte desses títulos. “Colocamos muito recurso na crise da saúde, e o Senado deu um sinal muito ruim, permitindo que justamente recursos que foram para a crise da Saúde possam se transformar em aumento de salário”, disse o ministro.
É o mesmo tipo de artimanha utilizada pelo Instituto Millenium e aTV Globo, em campanha aberta pelo congelamento dos gastos dos servidores, e, até mesmo a sua redução. Para justificar a necessidade de “enxugamento” das despesas com pessoal, os salários dos professores não foram computados como gastos da educação. Nem dos médicos e demais profissionais no orçamento da saúde.
“Políticas públicas não são executadas sem servidores públicos”, afirmou, em nota, a Internacional de Serviços Públicos (ISP ou PSI, na sigla em inglês). “No universo paralelo dessa turma, os doentes tratam a si mesmos, nos hospitais, e os alunos dão aula pra si mesmos, nas escolas e universidades. Os gastos com saúde e educação são gastos apenas com capital físico, não com trabalho. É muita picaretagem ideológica travestida de ‘estudo’”, criticou”, criticou o professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro.

Reservas

Os ganhos cambiais das reservas ocorrem em função da desvalorização do real frente ao dólar. Um projeto de lei encaminhado pelo deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) quer permitir acesso excepcional a estes recursos para custear gastos com saúde durante a pandemia.
Contudo, Guedes e sua equipe querem se apropriar de parte desse montante, que decorre, em grande medida, do acúmulo das reservas durante os governos do PT. Entretanto, sem o aval do Congresso Nacional, o ministro pretende fazer a operação apenas com uma autorização do Conselho Monetário Nacional (CMN). Ou seja, em vez de destinar esses recursos para fortalecer o sistema de saúde, a intenção é gastar no pagamento da dívida pública.
O cientista político e sociólogo Emir Sader destacou a ação do governo e a omissão de parte da mídia. Segundo ele, ao mesmo tempo que pregam a contenção dos gastos públicos para servidores, se calam quando os recursos são destinados ao sistema financeiro.

Câmara

Esse veto deveria ter ido à votação na Câmara na sequência da decisão do Senado. Mas, temendo uma derrota definitiva, a base do governo manobrou para adiar a sessão. Os deputados se reúnem nesta quinta-feira (20), a partir das 19h, para apreciar o veto. O governo pressiona os deputados do Centrão para garantir, como quer Guedes, o congelamento salarial dos servidores. Parlamentares da oposição afirmam que vão lutar pela derrubada do veto, em nome da valorização dos servidores que estão na linha de frente da pandemia.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

MALDADES DO GUEDES! MINISTRO QUER REDUZIR LISTA DE DOENÇAS PASSÍVEIS DE APOSENTADORIA POR INVALIDEZ


GUEDES QUER REDUZIR LISTA DE DOENÇAS PASSÍVEIS DE APOSENTADORIA POR INVALIDEZ


Os ministérios da Economia e da Saúde criaram um grupo de trabalho para revisar a lista de enfermidades e afecções que autorizam o pagamento de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez. As possíveis mudanças ocorrerão na Lei nº 8.213, de julho de 1991.

A portaria com a determinação foi publicada nesta segunda-feira (29/06), no Diário Oficial da União (DOU). O texto é assinado pelos ministros Paulo Guedes e general Eduardo Pazuello.
A legislação aponta algumas enfermidades que isentam a carência para o benefício de auxílio-doença, como tuberculose ativa, hanseníase, alienação mental, esclerose múltipla, hepatopatia grave, cegueira, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, entre outras.

O grupo irá mexer nas balizas construídas em agosto de 2001. Essas doenças excluem a exigência de carência para a concessão de benefício por incapacidade temporária ou permanente aos segurados do Regime Geral de Previdência Social, administrado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O governo pretende elaborar as novas diretrizes em 180 dias, prazo que excepcionalmente poderá ser prorrogado por mais 30 dias. O grupo entregará aos ministros um relatório com a “proposição de encaminhamentos”, ou seja, o que deve ser alterado.

A coordenação do Grupo de Trabalho cabe à Subsecretaria da Perícia Médica Federal da Secretaria de Previdência da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Assessora de Guedes comemora mortes de idosos por coronavírus: “Reduzirá nosso déficit previdenciário”


Segundo o epidemiologista Júlio Croda, Solange Vieira, aliada de Guedes que esteve envolvida na reforma previdenciária no ano passado, minimizou a previsão de mortes generalizadas entre os idosos, se o vírus não fosse contido. "É bom que as mortes se concentrem entre os idosos... Isso melhorará nosso desempenho econômico”, disse Vieira




Por Stephen Eisenhammer e Gabriel Stargardter
(Reuters) - Em meados de março, o governo brasileiro tomou medidas que pareciam um ataque poderoso e antecipado contra a pandemia de coronavírus.
O Ministério da Saúde determinou que os cruzeiros fossem cancelados. Aconselhou as autoridades locais a descartarem eventos de grande escala. E orientou os viajantes que chegavam do exterior a ficarem isolados por uma semana. Embora o país ainda não tivesse relatado uma única morte por Covid-19, as autoridades de saúde pública pareciam estar saindo na frente do vírus. Elas agiram em 13 de março, apenas dois dias após a Organização Mundial da Saúde (OMS) chamar a doença de pandemia.
Menos de 24 horas depois, o ministério atenuou suas próprias orientações, citando “críticas e sugestões” recebidas das autoridades locais.
No entanto, quatro pessoas familiarizadas com a questão disseram à Reuters que a mudança ocorreu após intervenção do ministro-chefe da Casa Civil, Walter Souza Braga Netto.
“Essa correção se deu por pressão”, afirmou Julio Croda, epidemiologista que era chefe do departamento de imunização e doenças transmissíveis do Ministério da Saúde. A intervenção de Braga Netto não havia sido relatada anteriormente.
A mudança de postura, que não chamou muita atenção na época, marcou um ponto de virada no tratamento da crise pelo governo federal, segundo as quatro fontes. Nos bastidores, disseram elas, o poder estava mudando do Ministério da Saúde, tradicional líder em questões de saúde pública, para o gabinete de Braga Netto, general do Exército.
O Brasil perdeu dois ministros da Saúde nas últimas seis semanas —um foi demitido (Luiz Henrique Mandetta) e o outro pediu demissão (Nelson Teich)— depois de discordarem publicamente de Bolsonaro sobre a melhor forma de combater o vírus. O ministro interino agora é outro general do Exército, Eduardo Pazuello.
As revisões destacaram o fortalecimento da visão de Bolsonaro de que manter a economia brasileira em funcionamento era fundamental, disseram as fontes. Bolsonaro nunca vacilou nessa postura formulada durante alguns dias cruciais em meados de março, apesar das críticas nacionais e internacionais ao tratamento da crise e do aumento no número de mortos.
O Brasil tem agora o segundo maior número de infecções no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de 374.000 casos confirmados. Mais de 23.000 brasileiros morreram de Covid-19.
“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, disse Bolsonaro recentemente quando perguntado por repórteres sobre as crescentes mortes no país.
A Casa Civil informou que as mudanças nas diretrizes de 13 de março foram feitas pelo Ministério da Saúde, após contribuições de Estados e municípios.
O Ministério da Saúde disse que houve uma divergência de opiniões devido a diferentes situações nos Estados e cidades em todo o país. Acrescentou que a implementação de medidas de distanciamento social era de responsabilidade das autoridades locais de saúde.
“A estratégia da resposta brasileira à Covid-19 não foi prejudicada em nenhum momento”, afirmou o ministério.
O gabinete de Bolsonaro se recusou a fazer comentários para esta reportagem.
A Reuters entrevistou mais de duas dezenas de autoridades atuais e antigas do governo, especialistas em medicina, representantes do setor de saúde e médicos para mostrar a imagem mais completa das falhas do Brasil em conter o surto de coronavírus no país
Elas descreveram uma resposta que começou de maneira promissora, mas que logo foi atrapalhada pelos confrontos do presidente com o Ministério da Saúde e outras autoridades, que não conseguiram convencê-lo de que o destino econômico dependia da eficácia com que o país lidava com a emergência de saúde pública.
Especialistas em saúde foram afastados, segundo as fontes, e Bolsonaro adotou um remédio sem eficácia comprovada —a cloroquina— para tratar infecções por Covid-19. A coordenação federal naufragou. Governadores —alguns dos quais Bolsonaro considera rivais na reeleição— ficaram isolados para definir suas próprias políticas de distanciamento e garantir grande parte de seus testes e equipamentos, disseram as pessoas ouvidas.
Alguns especialistas afirmaram que os tropeços no país são ainda mais chocantes por causa de seu sucesso anterior com malária, zika e HIV.
“Uma coisa que vinha brilhando no Brasil é o sistema de saúde pública”, disse Albert Ko, professor da Escola de Saúde Pública de Yale, com décadas de experiência no Brasil. “Ver tudo se desintegrar tão rapidamente é muito triste.”
“GELADEIRA VAZIA”
Quando o primeiro caso de coronavírus no Brasil foi confirmado, em 26 de fevereiro, o Ministério da Saúde estava se preparando há quase dois meses.
A equipe da pasta estava executando modelos para estimar quando e como implementar as determinações para ficar em casa, em colaboração com autoridades estaduais e municipais, disseram as fontes. O ministério era o centro de comando de um comitê de emergência coordenando a resposta federal em várias agências.
A dimensão continental do Brasil, os problemas nos hospitais públicos e a pobreza eram vulnerabilidades. Mas o país possui importantes cientistas e um setor de saúde privado competente, e teve semanas de aviso prévio, já que o vírus atingiu países como China e Itália primeiro. Os representantes da linha de frente achavam que o Brasil estava em boa posição para responder ao surto.
Mas as pessoas que conversaram com a Reuters disseram que as coisas começaram a desmoronar em duas frentes principais: a oposição de Bolsonaro às medidas de isolamento apoiadas pelo Ministério da Saúde e a incapacidade do governo de ampliar os testes rapidamente.
Integrantes do governo tentaram várias vezes convencer Bolsonaro a endossar um isolamento nacional, de acordo com uma pessoa com conhecimento direto das discussões. Bolsonaro se recusou, disse a fonte, acreditando que o vírus passaria logo e que as autoridades de saúde estavam exagerando sobre a necessidade de distanciamento social que se mostrou eficaz em outras partes do mundo.
“A massa não tem como ficar em casa, porque a geladeira está vazia”, ​​disse Bolsonaro no dia 20 de abril em frente ao Palácio da Alvorada.
O gabinete de Bolsonaro se recusou a comentar por que ele priorizou a economia. Mas o presidente enfrentou pressão para fazê-lo. Membros de sua base de apoio protestaram em algumas cidades contra o isolamento, que ameaçava sua promessa de retomar o crescimento econômico.
Os assessores econômicos de Bolsonaro, no entanto, parecem ter demorado para entender a escala da crise. O ministro da Economia, Paulo Guedes, defensor do livre mercado, disse em meados de março à CNN Brasil que a economia do país em 2020 poderia “crescer 2% ou 2,5% com a queda no mundo” por causa do coronavírus.
Essa previsão estava longe de ser acertada. A atividade industrial entrou em colapso, o desemprego está aumentando e o real caiu cerca de 30% em relação ao dólar este ano. Em 15 de maio, o Barclays reduziu previsão do PIB brasileiro em 2020 de -3,0% para -5,7%, ao citar política “ineficaz” do Brasil para lidar com a pandemia.
O Ministério da Economia agora projeta que o PIB contrairá 4,7% este ano. Em um comunicado enviado por email, disse que suas previsões evoluíram de acordo com a gravidade da situação.
Guedes rejeitou pedido para comentar sua previsão anterior.
Solange Vieira, aliada de Guedes que esteve envolvida na importante reforma previdenciária do governo no ano passado, também mostrou pouca urgência quando foi apresentada a previsões do Ministério da Saúde em meados de março, de acordo com o epidemiologista Croda. O ministério previu mortes generalizadas entre os idosos, se o vírus não fosse contido.
Segundo Croda, ela afirmou: “É bom que as mortes se concentrem entre os idosos... Isso melhorará nosso desempenho econômico, pois reduzirá nosso déficit previdenciário.”
O relato de Croda foi corroborado por outra autoridade, que, falando sob condição de anonimato, contou que recebeu informação do ocorrido, mas não estava na reunião.
Solange Vieira não respondeu a uma mensagem no LinkedIn. A Superintendência de Seguros Privados, que ela lidera, disse em resposta a perguntas sobre seus comentários que ela participou da reunião de meados de março a convite do então ministro da Saúde Mandetta para entender as projeções do ministério.
Ela observou os impactos de vários cenários “sempre com foco na preservação de vidas”, informou, em nota.
PRESSÃO DE CIMA
Por alguns dias em março, parecia que as consequências de uma viagem à Flórida para encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, poderiam ter alterado o pensamento de Bolsonaro sobre o coronavírus.
Logo após o retorno da visita, em 12 de março, o secretário de Comunicação da Presidência teve teste positivo para Covid-19. Nos dias seguintes, cerca de duas dezenas de autoridades que fizeram a viagem teriam resultados positivos, provocando temores de que Bolsonaro e Trump pudessem estar infectados.
Depois de passar por um teste de coronavírus em 12 de março, Bolsonaro pediu aos seus apoiadores para suspenderem protestos planejados para 15 de março por medo de agravar a disseminação. No dia seguinte, ele disse que seu teste foi negativo. Enquanto isso, o Ministério da Saúde anunciava recomendações iniciais de distanciamento social em uma conferência de imprensa na capital.
E então as coisas mudaram.
Logo após a publicação das novas diretrizes, em 13 de março, Croda disse que recebeu uma ligação de seu ex-chefe, o secretário de Vigilância em Saúde Wanderson Oliveira, que afirmou que estava “sob muita pressão da Casa Civil e que tinha que mudar o comunicado” publicado pelo ministério descrevendo as medidas. Segundo Croda, Oliveira não disse especificamente quem na Casa Civil exigiu que as diretrizes fossem enfraquecidas.
Em 24 horas, o ministério havia alterado as recomendações em seu site. Removeu as orientações sobre auto-quarentena para viajantes e o cancelamento de cruzeiros, dizendo que essas medidas estavam “em revisão”. E revisou o cancelamento de grandes eventos para aplicá-lo apenas em áreas com transmissão local.
Oliveira não respondeu aos pedidos de comentário. Ele saiu nesta semana do Ministério da Saúde.
Em 15 de março, Bolsonaro ignorou seu próprio pronunciamento de três dias antes que desencorajava protestos e se reuniu com apoiadores do lado de fora do Palácio do Planalto. Com camisa da seleção brasileira, cumprimentou pessoas e posou para selfies.
“Foi a primeira vez que vimos essa postura totalmente diferente”, disse o então ministro Mandetta à Reuters em entrevista depois que deixou o cargo.
No dia seguinte, em 16 de março, Bolsonaro formalizou a conduta ao tirar poder do Ministério da Saúde e criar um “gabinete de crise” intergovernamental liderado por Braga Netto. O Brasil registrou sua primeira morte por coronavírus em 17 de março.
Em resposta a perguntas da Reuters, o gabinete de Braga Netto disse que o grupo foi formado porque a pandemia “transcendeu” a saúde pública.
Três pessoas familiarizadas com a situação disseram à Reuters que o novo gabinete substituiu efetivamente o grupo que já havia sido criado dentro do Ministério da Saúde. A grande diferença, segundo eles, é que Braga Netto agora tinha a palavra final, em vez de especialistas em saúde pública, e que as preocupações econômicas ganharam mais peso.
O Ministério da Saúde disse que não comentaria questões econômicas, e que a resposta ao coronavírus atravessou os departamentos governamentais.
Croda saiu logo após a criação do novo centro de comando. Ele disse à Reuters que não queria ser responsabilizado por “mortes elevadas”.
Nas semanas que se seguiram, as diferenças políticas entre Bolsonaro e Mandetta foram escancaradas. Mandetta continuou defendendo que a população ficasse em casa, desafiando o presidente. Ele também pediu cautela sobre o medicamento cloroquina. Bolsonaro, seguindo a liderança de Trump, promovia cada vez mais a droga como uma possível cura da Covid-19, apesar da falta de evidências de sua eficácia.
A popularidade de Mandetta aumentou a tensão. Uma pesquisa realizada no início de abril pelo Datafolha mostrou que o Ministério da Saúde sob sua liderança tinha um índice de aprovação de 76%, mais do que o dobro de Bolsonaro.
Em 16 de abril, após dias de especulações, Bolsonaro demitiu Mandetta. Ele o substituiu por Nelson Teich, um respeitado oncologista e empresário da área da saúde, sem experiência em administração na saúde pública.
Duas fontes recém-saídas do Ministério da Saúde disseram que a última quinzena de abril foi perdida enquanto Teich “tomava pé” da situação. As decisões sobre testes e novos equipamentos foram adiadas, afirmaram. Mais de 15 especialistas em saúde pública, incluindo epidemiologistas experientes, saíram com Mandetta, segundo uma das fontes. Muitos foram substituídos por militares.
“Essas mudanças afetam muito a capacidade, a velocidade e a qualidade da resposta”, disse José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde que liderou a reação do Brasil à crise da epidemia de gripe suína em 2009. “Foi uma decisão desastrosa.”
O Ministério da Saúde negou que sua resposta tenha sido prejudicada pelas mudanças.
Em 15 de maio, Teich pediu demissão após menos de um mês no cargo. Bolsonaro o criticou por ter sido muito tímido em promover a reabertura da economia brasileira e o uso de cloroquina.
Teich não respondeu a um pedido de comentário.
Em entrevista à GloboNews no domingo, Teich disse que o desejo de Bolsonaro de uma rápida expansão do uso de cloroquina teve peso em sua decisão de deixar o cargo.
A saída de Teich acelerou a influência militar dentro do Ministério da Saúde. Eduardo Pazuello, general do Exército em atividade e sem formação médica, é agora ministro interino da Saúde. Das oito pessoas no topo do ministério, apenas uma tinha origem militar em março. Agora três delas têm. Pelo menos 13 militares também foram nomeados para cargos no ministério.
Dias após a demissão de Teich, o ministério abriu caminho para o amplo uso da cloroquina no tratamento de pacientes com casos leves de Covid-19.
As Forças Armadas geralmente ajudam na logística durante emergências. Mas Wildo Araújo, um ex-funcionário do Ministério da Saúde que foi coautor de um dos primeiros grandes estudos de Covid-19 do país, disse que o pessoal militar está sendo colocado em funções inadequadas.
“Tenho o maior respeito pelas Forças Armadas, mas tenho pena dos que estão entrando agora porque não têm ideia do que fazer”, disse ele. “Eles não sabem como lidar com o sistema público de saúde brasileiro”.
O Exército se recusou a comentar, encaminhando perguntas ao Ministério da Saúde, que também não quis comentar o papel dos militares.
MENOS TESTES
A oposição de Bolsonaro ao distanciamento social e a recusa em apoiar as autoridades locais em suas tentativas de impor isolamento contribuíram para minar o cumprimento dessas medidas, disseram especialistas.
Uma análise da Reuters dos dados de mobilidade do Google, que reúne a movimentação dos telefones celulares e os compara a um referencial pré-pandemia, mostrou uma redução muito menor de pessoas que entram e saem de centros de trânsito e locais de trabalho no Brasil do que em países europeus como Itália, França e Reino Unido, onde medidas de confinamento foram eficazes.
A Reuters também verificou que a redução de mobilidade no Brasil era menor do que a de outros países em desenvolvimento, como Argentina, Índia e África do Sul. A Reuters analisou dados de 17 países da África, Europa, América Latina e Ásia para o mês de abril.
Como outros países, incluindo Estados Unidos, o Brasil também teve dificuldades para garantir os testes para Covid-19. É uma grande deficiência, dizem alguns epidemiologistas, o que tornou mais difícil rastrear e controlar o vírus no Brasil.
A escassez de testes deve-se em parte ao excesso de dependência do Ministério da Saúde a uma instituição.
De acordo com documento interno do Ministério da Saúde visto pela Reuters, a pasta começou a comprar kits de testes de diagnóstico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) entre janeiro e fevereiro.
Em 7 de abril, no entanto, a Fiocruz entregou apenas 104.872 —ou 3,5%— dos cerca de 3 milhões de kits que o ministério havia encomendado, segundo o documento. Croda e outros disseram que a Fiocruz tinha dificuldade para adquirir reagentes cruciais no mercado internacional. Fontes do setor afirmaram que anos de cortes no orçamento também podem ter influenciado.
O Ministério da Saúde deveria ter estabelecido uma ampla rede de laboratórios públicos e privados, disse uma fonte, o que melhoraria a capacidade de adquirir reagentes e realizar os testes.
Em comunicado, a Fiocruz afirmou ter cumprido todas as suas obrigações perante o Ministério da Saúde.
A fundação disse que superou a meta inicial de 220.000 testes em 13 de abril e entregou quase 1,3 milhão de testes na última semana daquele mês. Afirmou ainda que espera entregar 11,7 milhões de testes até setembro.
“A competição mundial por esse tipo de teste foi muito grande”, declarou a Fiocruz, “o que causou uma escassez de produtos”.
A burocracia também prejudicou o Brasil. Um lote de 500.000 testes de anticorpos, usado para determinar quem teve o vírus, ficou retido no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, por 9 dias, enquanto o órgão regulador da saúde processava uma exceção para serem distribuídos sem rótulos em português, disseram à Reuters duas pessoas com conhecimento da situação.
O Ministério da Saúde se recusou a comentar o incidente. Disse que aumentou a capacidade de teste e realizará 46,2 milhões de testes, sem especificar um prazo. “A iniciativa faz parte dos esforços para encontrar novas compras no mercado nacional e internacional”, afirmou.
Em 12 de maio, no entanto, o Brasil havia processado apenas 482.743 testes. Dos 10 países com maior número de mortes por Covid-19, apenas a Holanda havia testado menos pessoas do que o Brasil — um país 12 vezes menor do que a população brasileira.
(Reportagem adicional de Ricardo Brito, Pedro Fonseca, Marcela Ayres e Lisandra Paraguassu)

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