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domingo, 29 de janeiro de 2023

'The Economist' afirma que, com Lula, perspectivas econômicas do Brasil estão melhorando

 


Publicação inglesa também descreve os principais desafios do novo governo na área econômica

Brasil de Fato - A revista inglesa 'The Economist' publicou um texto, na quinta-feira (26), em que revela confiança no novo governo Lula (PT) a respeito da economia. Segundo a publicação, com a posse do petista agora em janeiro, "as perspectivas econômicas do Brasil estão melhorando".

A matéria cita uma série de fatores internacionais, que combinados os anúncios feitos pelo novo governo, podem facilitar o fluxo econômico do país nos próximos anos.

No texto, a revista fez uma espécie de comparativo entre os dois momentos em que Lula governou o Brasil e aponta que o cenário econômico do início dos anos 2000 não se repetirá ao longo do terceiro mandato do petista.

Para a 'The Economist', o sucesso econômico dos mandatos anteriores foi resultado de uma combinação de fatores, "como demanda crescente pelas exportações de commodities do Brasil, baixas taxas de juros globais e dólar em queda".

O diagnóstico inicial sobre o terceiro mandato, segundo a revista, era trágico, constituído por elementos globais e domésticos. No plano internacional, as projeções eram de "fraco crescimento global, queda dos preços das commodities e aumento das taxas de juros"; Internamente, Lula começaria o novo governo herdando uma crise política com os ataques à democracia, os impactos da pandemia na economia e os problemas econômicos herdados ainda do governo Dilma Rousseff.

A provável conclusão diante deste quadro, segundo a revista, era de é "um mau momento para Lula retornar à presidência".

Quase um mês após a posse, a realidade é diferente dos que as previsões desenhavam e a revista conclui que o momento de Lula "não parece tão infeliz". O que fundamenta esta interpretação é a expectativa com a redução da taxa da inflação no mundo, a resistência da América e da Europa diante de uma provável recessão e o relaxamento da política de "covid zero" na China animam os mercados globais, favorecendo o Brasil.

Além disso, a 'The Economist' acredita que o preço das commodities e a retomada das negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia reacendem novos horizontes para o país. Este panorama leva a revista a concluir que as perspectivas econômicas são mais positivas, embora com o cenário desafiador.

Ao analisar a experiência de Lula no comando do Brasil, a revista conclui que "também está ficando mais fácil ver como ele pode polir ainda mais sua reputação de timing excepcionalmente bom"

Edição: Douglas Matos

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domingo, 21 de novembro de 2021

Japão 'enviou sinais' de que participará de eventual guerra entre China e Taiwan, afirma mídia




O jornal South China Morning Post aborda a posição geopolítica do Japão e a possibilidade de o país intervir em conflitos regionais; segundo especialistas citados, os japoneses têm enviado sinais inequívocos.



O Japão pode intervir militarmente no caso de um conflito entre a China e Taiwan, afirmou no domingo (21) o jornal South China Morning Post.

"O Japão não só tem enviado sinais ao nível oficial e individual, mas também tentou realizar ações práticas de resposta através da aliança Japão-EUA ou agiu parcialmente sozinho no atual quadro legal", de acordo com um artigo no jornal Asia-Pacific Security and Maritime Affairs citado pela mídia.

Especialistas chineses têm avisado que Tóquio pode usar missões de manutenção da paz da ONU para se tornar uma grande potência, sendo que, desde 1992, quando começou a participar de missões da ONU, as restrições à utilização de suas forças militares e às atividades de manutenção da paz têm sido relaxadas.


Além disso, pesquisadores da China referem que a Lei de Segurança Nacional de 2015 permitiu às Forças de Autodefesa do Japão o direito de participar de ações de "defesa coletiva", e alargou seus poderes.
Disparo do sistema automático de artilharia AO-18 (AK-630) da corveta Gromky no âmbito dos exercícios anuais Cooperação Marítima 2021 no mar do Japão - Sputnik Brasil, 1920, 19.10.2021
Japão diz monitorar navios da China e Rússia após exercícios navais conjuntos


Liu Jiangyong, especialista em relações sino-japonesas da Universidade de Tsinghua, China, diz estar preocupado com as ambições mundiais do Japão, ao mesmo tempo que tenta conter seu vizinho. Ele acrescentou que o país se aliou com os EUA, Austrália, Índia, OTAN e a Associação de Nações do Sudeste Asiático para colocar a China em xeque quando Pequim começou a desenvolver a Nova Rota da Seda, um projeto de infraestruturas ferroviárias e portuárias em várias partes do mundo.
Nos últimos anos as Forças Armadas do Japão e dos EUA têm realizado vários exercícios conjuntos e, no início desta semana, os dois países conduziram as primeiras manobras antissubmarino no mar do Sul da China.
Pequim declara que Taiwan é uma província rebelde cujo destino é um dia se reunificar com a China continental, e tem instado outros países a não se intrometerem no que diz ser um assunto interno da China. 


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

CPI da Covid: estudo da Prevent Senior 'é algo nazista', afirma professora

 


A Sputnik Brasil conversou com Michelle Fernandez, professora e pesquisadora no Instituto de Ciência Política da UnB, sobre os últimos desenvolvimentos da CPI da Covid e a expectativa para essa reta final da comissão.

A CPI da Covid aprovou nesta quinta-feira (23) a convocação de Bruna Morato, advogada de um grupo de médicos da rede de planos de saúde Prevent Senior que elaboraram dossiê com denúncias de irregularidades no tratamento de pacientes com COVID-19 da operadora de saúde.

Também foi convocado para depor à comissão parlamentar de inquérito o empresário Luciano Hang, sócio da Havan. Segundo o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), a advogada deve ser ouvida pela comissão na próxima terça-feira (28) e Hang deve prestar depoimento na quarta-feira (29).

O presidente Jair Bolsonaro acompanhado do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e do fundador da Havan, Luciano Hang, durante 1ª Convenção Nacional do partido Aliança pelo Brasil, realizada no Royal Tulip, em Brasília
© FOLHAPRESS / PEDRO LADEIRA
O presidente Jair Bolsonaro acompanhado do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e do fundador da Havan, Luciano Hang, durante 1ª Convenção Nacional do partido Aliança pelo Brasil, realizada no Royal Tulip, em Brasília
O plano de saúde Prevent Senior passou a ser investigado pela CPI da Covid no Senado por uma série de suspeitas de irregularidades e na quarta-feira (22), a comissão ouviu o diretor-executivo da empresa, Pedro Benedito Batista Junior, que admitiu, entre outras coisas, que a empresa orientou para que os médicos modificassem o Código de Diagnóstico (CID) de pacientes que deram entrada com COVID-19, após 14 ou 21 dias, a depender do caso. 

A Sputnik Brasil conversou com Michelle Fernandez, professora e pesquisadora no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), sobre os últimos desenvolvimentos da CPI da Covid e a expectativa para essa reta final da comissão.

Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent Senior, depõe na CPI da Covid no Senado Federal, em Brasília (DF), em 22 de setembro de 2021
© FOLHAPRESS / FÁTIMA MEIRA/FUTURA PRESS
Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent Senior, depõe na CPI da Covid no Senado Federal, em Brasília (DF), em 22 de setembro de 2021

'Absurdos' da Prevent Senior

A CPI da Covid recebeu dossiê com denúncias de irregularidades elaborado por médicos e ex-médicos da Prevent Senior. O documento afirma que pacientes foram usados como cobaias em um estudo realizado para testar a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19 e fraude em atestados de óbito como resultado de um acordo entre o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a empresa para mostrar a eficiência do chamado tratamento precoce.

Michelle Fernandez afirma que a Prevent Senior assumiu um discurso de apoio ao presidente e ao tratamento precoce fomentado pelo governo federal e recorda que há registros de contato entre membros da empresa e o chamado gabinete paralelo, que teria atuado durante a pandemia assessorando o presidente Jair Bolsonaro com informações negacionistas sobre o SARS-CoV-2.

Aplicativo TRATECOV do Ministério da Saúde sugere a prescrição de medicamentos sem eficácia, como cloroquina e ivermectina, para auxiliar médicos e profissionais da saúde no tratamento de pacientes com a COVID- 19
© FOLHAPRESS / ROBERTO COSTA
Aplicativo TrateCov do Ministério da Saúde sugere a prescrição de medicamentos sem eficácia, como cloroquina e ivermectina, para auxiliar médicos e profissionais da saúde no tratamento de pacientes com a COVID- 19
"Todo esse estudo que a Prevent Senior se propôs a fazer não foi algo isolado, foi algo que tinha relação com esse discurso do governo federal. O estudo tinha intenção de mostrar que o tratamento precoce funcionava e isso serviria de subsídio ao governo federal", comenta a professora da UnB.

A especialista aponta que o estudo foi feito sem a autorização da Comissão Nacional de Ética do Conselho de Saúde (CONEP), o que é um "absurdo completo". Fernandez comenta outras barbaridades do procedimento da Prevent Senior:

"[Eles] submeteram pessoas a ensaios clínicos sem o conhecimento e o consentimento dessas pessoas. Teve gente que descobriu que o familiar estava no ensaio clínico porque viu na TV e depois pediu para ver o prontuário. O que eles fizeram é algo nazista, algo de [Josef] Mengele [médico nazista]."

Fernandez acrescenta que na época já existiam evidências científicas de que aquela abordagem não funcionava, mesmo assim a empresa chegou a administrar hidroxicloroquina em pacientes cardíacos, que não podem tomar essa medicação.

O presidente Jair Bolsonaro recomendou o uso de cloroquina contra a COVID-19. Foto de arquivo
O presidente Jair Bolsonaro recomendou o uso de cloroquina contra a COVID-19. Foto de arquivo
"Outro ponto gravíssimo: eles adulteraram atestados de óbito. Retiraram a COVID-19 de atestados de óbito. Isso é crime. É falsificação de documento público. E os médicos que foram submetidos a isso dentro da Prevent Senior decidiram denunciar e nesse momento estão sendo ameaçados de morte", alerta a especialista.

Na véspera do depoimento do diretor-executivo da empresa, Pedro Benedito Batista Junior, o presidente Bolsonaro voltou a defender o tratamento precoce, dessa vez na Assembleia Geral da ONU:

​"Desde o início da pandemia apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina. Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Não entendemos por que muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos", disse o presidente na terça-feira (21).

Reta final da CPI da Covid

Após a confirmação de que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, está com COVID-19 e vai ficar de quarentena em Nova York, EUA, o relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), anunciou que a comissão só pode acabar os trabalhos após ouvir Queiroga novamente. Será a terceira participação do ministro na CPI.

Além do ministro da Saúde e dos já citados Luciano Hang e Bruna Morato, a comissão chegou a convocar Ana Cristina Valle, ex-esposa de Bolsonaro, que chamou a atenção dos integrantes da CPI por sua relação com lobistas, entre eles, o advogado Marconny Ribeiro Faria, que trabalhou na Precisa Medicamentos. No entanto, ela não deve prestar depoimento à comissão por não haver consenso entre os senadores. Alguns parlamentares avaliam que seu depoimento poderia sair do escopo da comissão.

Ana Cristina Valle (ao centro), ex-mulher de Bolsonaro que supostamente gerenciava o esquema de rachadinha, em campanha para o presidente (foto de arquivo)
© FOLHAPRESS / EDUARDO ANIZELLI
Ana Cristina Valle (ao centro), ex-mulher de Bolsonaro que supostamente gerenciava o esquema de rachadinha, em campanha para o presidente (foto de arquivo)
Michelle Fernandez defende que a CPI já prestou um grande serviço ao país ao mostrar esquemas de corrupção do governo federal, além de crimes contra a vida e negligência. A professora da UnB cita o caso do escândalo da vacina indiana Covaxin, que o Ministério da Saúde negociou por um preço muito acima do valor de mercado. No acordo, a dose da Covaxin custava R$ 80, valor quatro vezes maior que o da vacina da Astrazeneca e 50% maior que o da Pfizer, que o Ministério da Saúde menosprezou por considerar cara demais.

A especialista sublinha também a crise com o desabastecimento de oxigênio em Manaus, com a ex-secretária do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro "liderando aquele processo de tentativa de implantação de imunidade de rebanho no município".

​Mas a pesquisadora garante que CPI não perdeu o foco principal: apurar a responsabilidade do governo federal nas quase 600 mil mortes causadas até agora pela pandemia do novo coronavírus. "Já ficou claro que essa responsabilidade vai ser atrelada ao presidente da República", afirma.

Presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), vice-presidente, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e relator senador Renan Calheiros (MDB-AL) durante sessão da CPI da Covid no Senado, 11 de agosto de 2021
© FOTO / AGÊNCIA SENADO / JEFFERSON RUDY
Presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), vice-presidente, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e relator senador Renan Calheiros (MDB-AL) durante sessão da CPI da Covid no Senado, 11 de agosto de 2021

Em 14 de setembro, um grupo de juristas, comandados pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, apresentou um parecer à CPI indicando possíveis crimes cometidos pelo presidente Bolsonaro ao longo da pandemia, entre eles: charlatanismo, prevaricação e incitação a outros crimes.

Renan Calheiro já informou que no relatório final da CPI pedirá pelo menos o indiciamento de Bolsonaro por prevaricação. A comissão pode funcionar até 5 de novembro.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik


sábado, 24 de julho de 2021

Postura norte-americana 'atirou' China para os braços da Rússia, afirma especialista

 


A Sputnik Brasil conversou sobre a tensa relação entre China e EUA em áreas como economia, cibersegurança, defesa e política externa com uma especialista do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou.

A China rejeitou nesta quinta-feira (22) um plano da Organização Mundial de Saúde (OMS) para uma segunda fase de uma investigação sobre a origem do SARS-CoV-2, que inclui a hipótese de que o vírus poderia ter escapado de um laboratório chinês. Horas depois, a Casa Branca afirmou que estava "profundamente desapontada" com a decisão da China.

Durante a campanha para a Casa Branca em 2020, o democrata Joe Biden desdenhava a hipótese de o novo coronavírus ter sido liberado acidentalmente ou deliberadamente por um laboratório chinês, enquanto o presidente Donald Trump defendia essa teoria.

Máscaras de Joe Biden e Donald Trump são confeccionadas após contagem de votos apontar vitória de Biden na eleição presidencial norte-americana
© REUTERS . ISSEI KATO
Máscaras de Joe Biden e Donald Trump são confeccionadas após contagem de votos apontar vitória de Biden na eleição presidencial norte-americana

Agora, o presidente Biden ecoa as afirmações de Trump de que o SARS-CoV-2 pode ter sido criado artificialmente e vazado do laboratório de Wuhan. Mas esta não é a única área em que a administração democrata está seguindo os passos do ex-presidente republicano.

A Sputnik Brasil conversou sobre a tensa relação entre as duas maiores potências do mundo em diversas áreas como economia, cibersegurança, defesa e política externa com Anna Kireeva, professora associada de Estudos Orientais e pesquisadora associada do Centro de Estudos Chineses Integrados e Projetos Regionais do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO, na sigla em russo).

Mantendo a linha trumpista

O ex-presidente Donald Trump (2016-2021) iniciou uma dramática ruptura nas relações dos EUA com a China, com declarações bombásticas, imposição de sanções e controles de exportação. Biden foi eleito afirmando que os EUA voltariam a ser o que eram antes de Trump, mas na prática, com relação à China, o democrata tem adotado uma postura muito parecida com a do seu antecessor.

Pedestre passa por muro grafitado com imagem do presidente da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump, em Berlim, Alemanha, 29 de abril de 2020
© AP PHOTO / MARKUS SCHREIBER
Pedestre passa por muro grafitado com imagem do presidente da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump, em Berlim, Alemanha, 29 de abril de 2020

Anna Kireeva recorda que Biden adotou durante a campanha de 2020 uma retórica muito mais branda com Pequim do que Trump, mas, uma vez eleito, o democrata "manteve os elementos básicos da política de Trump em relação à China".

"No que se refere às principais medidas adotadas, na esfera econômica, na sua maioria, Biden segue a linha política que já foi adotada pelo governo Trump. Na política externa, a gente vê particularmente a continuação dessa política, com algumas correções pontuais. Mas o mais importante é que o governo Biden está mais disposto a trabalhar com os aliados, e levar em conta os seus pontos de vista e preocupações, para atraí-los ao objetivo comum de confrontar a China, em praticamente todas as esferas relevantes", explica a especialista.

Segundo Kireeva, com Biden, a retórica anti-China diminuiu, com o presidente norte-americano inclusive afirmando que Pequim é o principal parceiro estratégico de Washington, mas todas as medidas nas esferas econômica e político-militar ficaram inalteradas, "todas as tarifas introduzidas pelo governo Trump seguem durante a administração Biden".

Política e tecnologia

A professora do MGIMO afirma que o Congresso norte-americano tem atualmente duas grandes preocupações com relação à China: acabar com a suposta repressão aos muçulmanos uigures e outras minorias na região de Xinjiang e a necessidade que os EUA têm de manter a sua vantagem competitiva na área de alta tecnologia.

Presidente dos EUA, Joe Biden, discursa durante sessão conjunta do Congresso Nacional, Washington, EUA, 28 de abril de 2021
© REUTERS / MELINA MARA
Presidente dos EUA, Joe Biden, discursa durante sessão conjunta do Congresso Nacional, Washington, EUA, 28 de abril de 2021
"Agora em junho foi aprovada uma nova lei sobre inovação e concorrência [nos EUA], que prevê a alocação de US$ 250 bilhões [aproximadamente R$ 1,3 bilhão] para que o país aumente o seu potencial na esfera da alta tecnologia e assim impedir que a China se torne a potência dominante" relembra Anna Kireeva.

Além do investimento local, Washington tem, desde o governo Trump, adicionado empresas chinesas à sua lista negra de sanções, que ficam proibidas de colaborar ou realizar qualquer tipo de negócio com outras organizações norte-americanas, ou nos EUA. A administração Biden ampliou o escopo da lista negra para proibir quaisquer negócios com empresas chinesas do complexo militar-industrial. Recentemente, a Casa Branca adicionou mais 14 empresas ao rol.

"Isto é, as medidas para reduzir a interação com empresas da China se expandiram. O governo [dos EUA] se preocupa com a eventual obtenção por parte da China da sua tecnologia de semicondutores e se esforça para fechar quaisquer brechas que existam, tanto nos EUA, quanto nos países aliados. Há uma pressão para que os aliados também deixem de cooperar com empresas chinesas. E devo dizer que aqui o governo [dos EUA] foi muito bem-sucedido", comenta a especialista.

Por outro lado, a China vem se movimentando, corrigindo programas do seu próprio desenvolvimento econômico e tecnológico, com novo plano de cinco anos para sair da dependência que atualmente tem de algumas indústrias norte-americanas.

"[A China] tem a meta de até 2025, em áreas cruciais de alta tecnologia, produzir as principais tecnologias independentemente. No entanto, na prática ainda existem deficiências em tecnologias cruciais, em particular na esfera de semicondutores", contextualiza.

Com relação ao setor militar, a professora afirma que a administração Biden ainda não possui uma estratégia definida. "Vemos que há um processo de revisão dessa política no Ministério da Defesa, no Pentágono. Está claro que o princípio será confrontar a China em todas as esferas, em todos os níveis, mas ainda não vimos nenhuma medida concreta", afirma.

Prédio do Pentágono em Arlington, Virgínia, EUA (foto do arquivo)
© REUTERS / CARLOS BARRIA
Prédio do Pentágono em Arlington, Virgínia, EUA (foto do arquivo)

Posição dos EUA fortalece relação Rússia-China

A retórica da administração Biden da luta da democracia contra autocracias, isto é, a China e a Rússia, tem consolidado a colaboração entre os dois gigantes, explica a professora, mas essa aproximação começou ainda no governo do democrata Barack Obama (2009-2017).

"O fortalecimento da cooperação entre a Rússia e a China em geral ocorreu como resultado das políticas das administrações norte-americanas, primeiro da administração Obama, em função da resposta que ele deu à Rússia nos eventos relacionados à Crimeia e à Ucrânia. Depois, a política de Trump em relação à China, que enfatiza a confrontação com Pequim. Nesse sentido, Rússia e China se sentem sob pressão norte-americana, se veem como objeto de diversas medidas restritivas, inclusive econômicas. Isso com certeza levou a uma maior interação bilateral, ao fortalecimento da cooperação na esfera político-militar, para a maior coordenação política", explica Anna Kireeva.

Todavia, a especialista reconhece que é bastante difícil avaliar quais serão os limites dessa cooperação Moscou-Pequim. Ela diz que caso a Cúpula Rússia-EUA reduza as tensões entre os dois países ou mesmo leve a alguma cooperação seletiva, "então é bem provável que não haverá estímulos para que Rússia e China passem a uma cooperação militar mais séria e profunda", caso contrário, "veremos a continuação e o aprofundamento de uma cooperação diversificada entre Rússia e China, inclusive em novas áreas".

Presidente da Rússia Vladimir Putin participa de eventos realizados no âmbito da visita à Rússia do presidente da China Xi Jinping
© SPUTNIK / SERGEI GUNEEV
Presidente da Rússia Vladimir Putin participa de eventos realizados no âmbito da visita à Rússia do presidente da China Xi Jinping

A professora do MGIMO imagina ainda outro cenário possível, caso os EUA coloquem mísseis de médio alcance na Ásia. Nesse caso, ela afirma ser muito provável um novo nível de cooperação na esfera da defesa antimíssseis entre a Rússia e a China.

"Aqui é provável a intensificação de ações conjuntas entre Rússia e China. No entanto, se não vermos medidas norte-americanas para que se entre em confrontação plena com a Rússia e a China, é pouco provável que Moscou e Pequim deem aquele passo a mais e formem uma aliança militar genuína, ou algum bloco militar rígido, que inclua obrigações de defesa", conclui.

Guerra cibernética

Esta semana, agências de inteligência dos EUA emitiram um alerta conjunto acusando a China de atividades cibernéticas maliciosas e apresentaram mais de 50 táticas usadas por hackers supostamente afiliados a Pequim.

Anna Kireeva afirma que a cibersegurança é uma área onde o confronto entre as duas potências vai continuar por muito tempo, seja pela falta de legislação nesse setor, seja pela atual situação da relação Washington-Pequim.

Trabalhador entra na fábrica de frigoríficos da JBS em Greeley, Colorado, EUA. Um ataque de ransomware de fim de semana na maior empresa de carne do mundo está interrompendo a produção em todo o mundo, semanas após um incidente semelhante encerrar um Oleoduto dos EUA. Foto de arquivo
© AP PHOTO / DAVID ZALUBOWSKI
Trabalhador entra na fábrica de frigoríficos da JBS em Greeley, Colorado, EUA. Um ataque de ransomware de fim de semana na maior empresa de carne do mundo está interrompendo a produção em todo o mundo, semanas após um incidente semelhante encerrar um Oleoduto dos EUA. Foto de arquivo
"A dificuldade da situação atual é que não há mecanismos de regulamento dessa esfera ao nível global e ao nível bilateral entre a China e os EUA. Além disso, a dificuldade vem desde o governo Trump, quando foram quebrados muitos dos canais de comunicação [entre os dois países]", comenta.

A especialista recorda que atualmente há pouca troca científica entre Washington e Pequim. Muitos vistos para pesquisadores chineses foram negados e poucas empresas chinesas seguem no Vale do Silício.

"A pandemia intensificou ainda mais todos esses processos e isso em geral levou à situação em que os países preferem os canais de comunicação que tinham antigamente e isso faz com que a cooperação na ciberesfera seja ainda mais perigosa no futuro, porque é pouco provável que esses canais serão restaurados", alerta.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik


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