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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Ministério Público e Procuradoria contestam MP ‘antitrabalhador’, que também favorece trabalho escravo

 


Por Paulo Henrique Arantes, para o 247 - A Medida Provisória 1.045 / 2021, que a Câmara aprovou na terça-feira (10), está prestes a virar lei e é bem pior do que o noticiado pela imprensa. Se o texto original, enviado pelo governo, já era um tanto duro para os trabalhadores, sob a justificativa de que geraria empregos perdidos na pandemia, o material reciclado pelo relator Christino Áureo (PP-RJ) beira a crueldade. Redução de jornada e salário e suspensão de contrato compõem a face mais light da possível futura lei.

Ministério Público da União, Ministério Público do Trabalho e Procuradoria Geral do Trabalho contestaram a medida, enfatizando que o texto viola a Constituição e jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (leia abaixo a nota técnica das instituições).

Para o procurador do Trabalho Italvar Medina, além das flexibilizações da CLT que favorecem o subemprego, a MP fere de morte o combate ao trabalho escravo no país.  “Primeiro, ela busca atribuir poderes de fiscalização das relações de trabalho exclusivamente aos auditores fiscais, o que atingiria atribuições do Ministério Público do Trabalho. Paralelamente, ela limita a possibilidade de os auditores fiscais lavrarem autos e imporem multas por infração à legislação trabalhista”, explica Medina.

Além disso, diz o procurador, a MP “submete a possibilidade de anulação dos autos de infração de auditores fiscais do trabalho a um conselho que não tem natureza técnica e que seria composto também por empregadores”.

A MP em questão ainda tenta impedir que o trabalhador postule qualquer verba por adoecimento e sintomas de doença que surjam posteriormente ao seu vínculo empregatício, mas que tenham sido adquiridos durante a vigência do contrato de trabalho. Não bastasse, retira o caráter salarial de benefícios como o vale-alimentação. 

“Quando foi editada pelo presidente da República, a MP 1.045 instituiu a possibilidade de suspender contratos ou reduzir jornadas e salários mediante o recebimento de um benefício. Na conversão em lei, o relator na Câmara inseriu vários dispositivos novos estranhos ao objeto originário da MP, o que inclusive é proibido pelo regimento interno da própria Câmara e por jurisprudência do STF”, adverte Medina.

Christino Áureo criou dois novos programas. Um deles, denominado Priori, prevê a contratação de jovens de 18 a 29 anos e de maiores de 55 anos a custos menores. “Essas pessoas terão menos direitos, alíquotas menores de FGTS, uma indenização sobre o saldo de FGTS menor em caso de dispensa e a possibilidade de o terço das férias e o 13º Salário serem pagos parceladamente mês a mês, o que contraria a finalidade dessas verbas”, observa Medina.

Outra invenção do deputado do PP é o programa Requip, ainda pior que o Priori, porque se destina prioritariamente a jovens vulneráveis praticamente sem qualquer direito trabalhista, recebendo uma bolsa menor que um salário mínimo. Segundo Italvar Medina, a justificativa é de que seria fornecida a esses jovens uma formação teórica, algo que já é plenamente alcançado pela aprendizagem profissional.  “Esse programa, na verdade, retira todo tipo de proteção trabalhista, e não garante direitos previdenciários aos contratados dessa forma, o que contraria frontalmente a Constituição”, denuncia o procurador do Trabalho.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Resposta de Bolsonaro à pandemia favorece os 'muito ricos', diz economista



A resposta do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) à pandemia de COVID-19 privilegia bancos em detrimento das pessoas e terá impacto de grandes proporções, avalia economista ouvido pela Sputnik Brasil.

Em março, o Banco Central (BC) prometeu até R$ 1,2 trilhão em liquidez para lidar com a crise. Uma das medidas adotadas foi a redução da taxa de depósitos compulsórios (taxa mínima que os bancos devem manter em seus cofres para garantir a estabilidade do sistema financeiro). Com isso, em tese, os bancos poderão emprestar para empresas em dificuldades criadas pela desaceleração econômica de escala global causada pela pandemia. 
Contudo, o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, reconheceu que os recursos liberados para os bancos ficaram "empoçados no sistema financeiro" e não chegaram à população e às empresas. 
Para o professor de Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC) Fábio Sobral, as escolhas da equipe econômica de Guedes mostram que há uma preferência pelos setores "muito ricos" da população. Sobral pontua como exemplo da preferência que o valor sugerido pelo Governo Federal para o auxílio emergencial, hoje em R$ 600 mensais, era inicialmente de R$ 200.
"Os bancos estão seguros para suportar as quebras das empresas, mas as empresas em si não foram protegidas, inclusive aquelas que são as menores empresas, os pequenos negócios, esses estão completamente desprotegidos e, mais ainda, as camadas trabalhadoras [estão desprotegidas] porque demorou muito para sair o auxílio emergencial", diz Sobral.
O professor da UFC avalia que as filas formadas pelo país para receber o auxílio emergencial mostraram "condições desumanas" e que as políticas adotadas por Bolsonaro vão, na verdade, prolongar os efeitos da pandemia no Brasil já que simplesmente reabrir a economia não funcionará. 
"O desespero pode provocar um recolhimento ainda mais intenso das pessoas. Segundo alguns economistas, boa parte do funcionamento do consumo depende de percepções e expectativas que as pessoas têm. Então se você acha que haverá uma segunda leva [de infecções], há uma séria restrição do consumo e isso tende a abalar a produção. Os efeitos são expansivos nesse caso", diz Sobral. 

Crítica estrangeira

O ex-economista-chefe do FMI Maurice Obstfeld também avalia de maneira negativa as políticas brasileiras de resposta à pandemia. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Obstfeld afirmou que a economia brasileira deve cair ainda mais do que os 5,3% previstos pelo FMI. 
"A resposta desdenhosa do presidente Bolsonaro à doença vai custar caro ao Brasil, tanto em termos de vidas como de renda. Com uma liderança apropriada, o Brasil claramente teria a capacidade de salvaguardar a saúde das pessoas, mas agora é uma área de alta incidência na América Latina. Isso não protege a economia, pelo contrário", afirmou o ex-economista-chefe do FMI.
As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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