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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Pequim quer elevar cooperação e não pressionar Brasil a decidir entre EUA-China, diz analista chinês



 Para alto acadêmico chinês, ter boas relações com a China não significa ser contra os EUA, principalmente neste momento em que Pequim busca nova abordagem sobre sua política externa. Além disso, "os chineses torciam pela vitória de Lula", fato que pode "marcar novo começo para a relação China-Brasil".


Em entrevista ao jornal O Globo, diretor do Departamento de América Latina da Universidade Renmin em Pequim, Cui Shoujun, concedeu uma série de declarações expressando as impressões chinesas sobre o novo governo que começará em 2023 no Brasil com presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo Cui, "os chineses torciam pela vitória de Lula e o resultado atendeu a nossa expectativa", uma vez que essa seria "um bom começo para o reaquecimento das relações bilaterais" entre os dois países.

"[...] O Brasil é um país muito importante [...] também tem um papel importante em outro mecanismo de coordenação de países emergentes, que é o BRICS. [Presidente] [Jair] Bolsonaro não estava muito interessado na cooperação entre os países do BRICS, nem apoiou a proposta da China de um 'BRICS plus' [...]. Já Lula, quando esteve no poder, foi muito ambicioso no intuito de elevar o status internacional do Brasil, com uma inclinação diplomática global de engajamento com países da Ásia, como China e Japão. Além disso, ele priorizou as relações com outros países em desenvolvimento, como os africanos. Portanto, é um bom começo", afirmou o diretor.

O diretor relata que Pequim vem sofrendo "uma intensa pressão dos Estados Unidos" e que para o gigante asiático "a ênfase deve ser na reforma do sistema global de governança", visto que, até o momento, a governança "[...] foi dominada pelo G7. As contrapartes do G7 são o G20 e o BRICS, como representante de importantes economias emergentes", declarou.
Vendedor ambulante vende toalhas com fotos do presidente Jair Bolsonaro (PL) e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Foz do Iguaçu (PR), em 11 de fevereiro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 10.10.2022
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Com esse contexto, Cui acredita que "se o Brasil concordar com as propostas da China, o BRICS será capaz de desempenhar um papel bem maior no sistema de governança global" e que a participação do país na Organização de Cooperação de Xangai "seria bem recebida pela China".
O jornal questiona o acadêmico se, diante do atual cenário geopolítico, é necessário "escolher" entre "EUA e China". Cui responde que não, já que "ter boas relações com a China não significa ser contra os EUA".
"Ter boas relações com a China não significa ser contra os EUA. É possível manter boas relações com ambos. A China está buscando um novo tipo de relações internacionais. No contexto atual é preciso ter uma política externa inteligente. Por exemplo, a China mantém boas relações com o mundo árabe e também com Israel e com o Irã, que são inimigos."
Mais de 20 países sul-americanos já aderiram à Nova Rota Da Seda, indagado se Pequim espera que Brasília entre para a iniciativa, o diretor diz que está "otimista que isso acontecerá" e que a adesão facilitaria a ampliação dos negócios entre Brasil-China.

" [...] Os investimentos chineses desaceleraram nos últimos quatro anos por causa da postura de Bolsonaro em relação à China. Há muitas outras estatais chinesas dispostas a fazer investimentos que estão à espera de um clima político adequado. A economia brasileira está sofrendo, precisa de estímulos para gerar emprego e crescimento. Os EUA falam muito, mas fazem pouco. A China é um dos poucos países que realmente podem ajudar. A adesão à iniciativa seria um estímulo político importante para os investimentos chineses", afirmou.

Curi complementou sua resposta declarando que "[...] o Brasil aderiu à iniciativa norte-americana de investimentos em infraestrutura [América Cresce]. Se aderir ao projeto da China haverá um equilíbrio. A cooperação com a China não significa que o Brasil não pode cooperar com os EUA. A China quer promover a cooperação internacional, não estamos pressionando o Brasil a escolher um lado".

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Analista: ao recusar ir à posse de Boric no Chile, Bolsonaro impulsiona política que isola o Brasil

 


Ao fazer constantes declarações demonstrando seu posicionamento pessoal diante de líderes latino-americanos, Bolsonaro cria graves consequências para política externa brasileira. A Sputnik Brasil ouviu analista para entender por que o governo opta por um comportamento não diplomático.


No dia 19 de dezembro, o candidato de esquerda, Gabriel Boric (Convergência Social) ganhou as eleições no Chile ao concorrer com candidato da extrema direita, José Antonio Kast (Partido Republicano).
Desde então, os filhos parlamentares do presidente, Jair Bolsonaro (PL), assim como o próprio, vêm criticando a chegada do esquerdista ao poder, e ontem (12), Bolsonaro disse que não vai à posse de Boric que acontecerá no dia 11 de março, segundo o UOL.

"Quem é que vai na posse do presidente do Chile... Eu não irei. Vê quem vai", afirmou o mandatário.

Bolsonaro levou 72 horas para parabenizar o novo chefe do Executivo chileno, e em uma conduta parecida com a que vem tecendo com a Argentina, cria atritos com mais um país dentro da América Latina, dificultando a integração do Brasil na região.

Sputnik Brasil entrevistou Arnaldo Cardoso, cientista político e analista de política internacional para entender o porquê que o atual governo cria relações extremecidas com o Chile mesmo antes da posse do novo presidente, e se essa postura vai influenciar nos blocos de interligação entre os dois países, como o Mercosul e o Prosul.
Presidente do Chile, Gabriel Boric, em 20 de dezembro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 25.12.2021
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Segundo Cardoso, a não presença do presidente brasileiro na posse de Boric não é nenhuma surpresa, a partir do momento "que a América Latina nunca esteve na agenda de política externa do governo Bolsonaro".

"A equivocada orientação de alinhamento com os Estados Unidos de Donald Trump norteou a política externa nos primeiros anos do atual governo e subverteu a tradição diplomática brasileira, subordinando os interesses do país a uma visão ideológica que resultou em perda de prestígio regional e global do Brasil", analisa.

Além disso, o especialista ressalta que, nos últimos anos, o Itamaraty "abandonou qualquer projeto de liderança regional", e a decisão do presidente de não comparecer à posse "se integra a extensa série de erros que isolaram o Brasil do mundo".
A postura hostil brasileira em relação ao Chile, se estende a conduta com a Argentina, outro país que, publicamente, Bolsonaro critica dando alfinetadas no mandatário argentino, Alberto Fernández.
Cardoso observa a atitude como "um erro grosseiro" misturado a "ignorância e desprezo pela institucionalidade e ritos do Estado". Em sua visão, na atual política externa brasileira "falta entendimento do que é uma burocracia especializada" e sabedoria para distinguir "governo e Estado".

"Política externa é coisa de Estado, é construída no longo prazo por meio de negociações visando a convergência e satisfação de interesses das partes. Não pode estar sujeita aos caprichos do governante de plantão."

Para o cientista político, este tipo de atuação com os vizinhos argentinos é um grande descuido, uma vez que "a Argentina é o principal parceiro comercial e político do Brasil na América do Sul".
"Independentemente do matiz ideológico dos presidentes, essas relações refletem interesses de diversos setores das respectivas sociedades. Promover a discórdia e atritos com vizinhos é um erro grosseiro", pontua.
Inundanções na Bahia, Brasil  - Sputnik Brasil, 1920, 28.12.2021
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Aliança do Pacífico e Mercosul

No final de dezembro, o novo presidente chileno começou a apresentar suas diretrizes para política externa do país e deixou claro que, dentro deste tópico, Santiago vai priorizar as parcerias com a Aliança do Pacífico, grupo econômico formado por Chile, Colômbia, Peru e México.

"Vamos dar prioridade à Aliança do Pacífico no futuro. Já falei com vários dos presidentes, em particular com (Andrés) Manuel López Obrador do México, com o presidente (Iván) Duque da Colômbia, e também temos estado em contato com o Ministério das Relações Exteriores do Peru", disse Boric citado pela RFI.

Cardoso comenta que no começo da campanha, o presidente demonstrou iniciativa para movimentar o Chile dentro do Mercosul e o tornar efetivo no bloco, entretanto, orientado por assessores, posteriormente passou a informar que a Aliança do Pacífico estaria entre as prioridades de seu governo.

"A Aliança do Pacífico, formada em 2012, optou desde o início por um formato mais aberto e com ênfase na liberdade comercial e de investimentos, enquanto o Mercosul sempre visou uma maior integração política no Cone Sul da América do Sul", explica.

Ainda assim, o cientista político salienta que "o bilateralismo foi a orientação predominante adotada pelo Chile nas últimas décadas, preferindo acordos de menor grau de comprometimento".
Vale também lembrar que o país chileno é a única nação da América do Sul que tem acordo de livre comércio com o Japão.
Jair Bolsonaro atende com ministro da Economia, Paulo Guedes e o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo à VI Reunião Extraordinária de Presidentes do PROSUL (videoconferência) em 16 de março de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 13.01.2022
Jair Bolsonaro atende com ministro da Economia, Paulo Guedes e o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo à VI Reunião Extraordinária de Presidentes do PROSUL (videoconferência) em 16 de março de 2021
No entanto, apesar de não se encontrarem, de fato, no bloco mercosulino, Brasil e Chile integram de forma equivalente em outra organização, o Prosul, Fórum para o Progresso e Desenvolvimento da América do Sul formado por mais 11 países.
Se as incompatibilidades entre o governo brasileiro e chileno pode minar a relação das duas nações dentro do Prosul, Cardoso diz que, pela aproximação das eleições do Brasil, esse quadro é difícil de acontecer.

"Com os resultados das pesquisas mais recentes de intenções de voto para o pleito de outubro no Brasil, o governo Bolsonaro entrou em contagem regressiva para o seu fim, sem possibilidades de reeleição, portanto, pouca influência terá neste ano sobre os rumos das negociações na região e, de modo geral, sobre temas internacionais", examina.

Em um futuro próximo, o analista acredita que vários arranjos "podem ser objetos de negociações", principalmente pela relevância política e econômica que abarca todos os países presentes neste tipo de organização.
"Mercosul e Aliança do Pacífico juntos, reúnem cerca de 475 milhões de habitantes e mais de 80% do PIB da América Latina. A região carece de um novo modelo de desenvolvimento, e isso pode ser buscado conjuntamente", pondera.
Portanto, uma boa articulação política regional "pode favorecer a concepção e implementação de bons projetos e, consequentemente, um melhor posicionamento desse conjunto de países na arena internacional", diz o especialista.
O presidente cessante do Chile, Sebastián Piñera (esquerda), se reúne com o presidente eleito Gabriel Boric no palácio presidencial La Moneda, em Santiago, 20 de dezembro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 13.01.2022
O presidente cessante do Chile, Sebastián Piñera (esquerda), se reúne com o presidente eleito Gabriel Boric no palácio presidencial La Moneda, em Santiago, 20 de dezembro de 2021
Boric, ex-líder estudantil, venceu com 54,72% dos votos válidos, contra 45,28% do adversário, José Antonio Kast.
A chegada do jovem chileno ao poder impulsiona uma possível nova onda de esquerda na América Latina, que pode ser amplificada se as pesquisas de intenções de votos no Brasil, as quais apontam o ex-presidente Lula (PT) como favorito, se concretizarem.
Candidato de esquerda Gabriel Boric, de 35 anos de idade, foi eleito presidente do Chile - Sputnik Brasil, 1920, 21.12.2021
Panorama internacional
Analistas explicam como Boric no Chile pode influenciar o cenário no Brasil e Europa


sábado, 11 de setembro de 2021

Brasil vive 'tempestade perfeita' de desafios que aumentaram pobreza no país, diz analista

 


Segundo dados, hoje, a renda individual média do brasileiro se encontra -9,4% abaixo do nível do final de 2019. Na população mais pobre, esta perda de renda é de -21,5%. A Sputnik Brasil entrevistou especialista para entender como a pandemia impactou a economia e o que fazer para sua recuperação.

A pandemia da COVID-19 pegou o mundo de surpresa e trouxe consigo não só um grande problema sanitário como também econômico. Com o dinheiro deixando de circular pelas restrições, falência de estabelecimentos e desemprego, o vírus se tornou não só uma ameaça para saúde pública, mas também para ampliação da desigualdade social.

No Brasil, segundo pesquisa da FGV Social, a renda individual média do brasileiro incluindo informais, desempregados e inativos se encontra hoje -9,4% abaixo do nível do final de 2019. Na metade mais pobre, esta perda de renda é de -21,5%, configurando aumento da desigualdade entre a base e a totalidade da distribuição.

Em relação aos mais favorecidos, a queda de renda entre os 10% mais ricos foi de -7,16%, menos de 1/3 da queda de renda observada na metade mais pobre.

Os principais perdedores foram os moradores da região Nordeste (-11,4% de perda de renda contra -8,86% do Sul); as mulheres que tiveram jornada dupla de cuidado das crianças em casa (-10,35% de perda contra -8,4% dos homens) e os idosos, por terem que se retirar do mercado pela sua maior fragilidade em relação ao vírus (-14,2%).  

A Sputnik Brasil entrevistou Marcelo Neri, diretor da FGV Social, para entender melhor os efeitos pandêmicos na economia brasileira, principalmente na parcela da população mais desassistida.

Distribuição de marmitas no centro da cidade de Curitiba. Muitos brasileiros passam necessidade pela falta de emprego e economia inflacionada pelo pandemia, em 1º de abril de 2021.
© FOLHAPRESS / LUIS PEDRUCO
Distribuição de marmitas no centro da cidade de Curitiba. Muitos brasileiros passam necessidade pela falta de emprego e economia inflacionada pelo pandemia, em 1º de abril de 2021.

Neri explica que, sobre a queda de renda evidenciada na parcela pobre (-21,5%), um total de 11,5%, corresponde ao aumento do desemprego, ou seja, a maior parte.

"Mecanicamente, quando aumentou o desemprego e caiu o salário, que são os componentes da renda do trabalho, a renda dos mais pobres caiu. […] Essas são as causas imediatas: desemprego, desalento, mas há algo por trás também, que está atingindo outros países, que é o combo da inflação alta e do desemprego alto", disse o especialista.

O diretor salienta que a inflação entre a classe mais humilde está três pontos acima da inflação nas classes mais favorecidas, uma vez que "itens como alimentos, gás, gasolina pesam com maior ênfase no orçamento dos mais pobres".

Outro ponto observado, é que o desemprego entre os mais desfavorecidos saltou de 26 para 35%.

"Está estagflação está impregnando o Brasil e, especialmente, a classe de renda mais baixa. É uma situação com difícil saída porque normalmente quando temos inflação alta o desemprego está baixo, a economia está aquecida. Porém, esse cenário da inflação e desemprego altos, e para combater a inflação a gente precisa desaquecer a economia, é como se tivéssemos que piorar o desemprego."

Neri elucida que essa situação cria "choques de oferta", que acontecem quando "se restringe a oferta da economia, piora a inflação e a produção, o que é preocupante, já que estamos vendo 'vários choques' acontecerem dentro de uma espécie de 'tempestade perfeita'".

Brasileiros, que antes não eram moradores de rua, mas pertenciam a uma classe mais desfavorecidas, após os efeitos da pandemia na economia, agora se encontram em situação precária levando o que tinham em casa para as ruas, Brasília, 30 de agosto de 2021
© FOLHAPRESS / ELIO RIZZO
Brasileiros, que antes não eram moradores de rua, mas pertenciam a uma classe mais desfavorecidas, após os efeitos da pandemia na economia, agora se encontram em situação precária levando o que tinham em casa para as ruas, Brasília, 30 de agosto de 2021

"Estamos dentro de uma 'tempestade perfeita' por diversos motivos: primeiro por questões climáticas, estamos na pior seca em muitos anos e isso está tendo impacto no preço da energia […], a própria pandemia é um choque de oferta porque as pessoas não podem trabalhar, assim como algumas cadeias de produção que estão rompidas e enfrentando dificuldades, além disso, a incerteza do mercado pelo contexto político do Brasil."

Em resumo, o especialista diz que "a renda média caiu, a desigualdade aumentou, a inflação e o desemprego subiram e estamos vendo alguns choques prospectivos, como a crise de energia que está apenas no começo, a incerteza na agenda política e a vacinação na pandemia, que avançou, mas tem a variante Delta, então é uma série de desafios que estão impactando os mais pobres".

"Estamos em uma era de pouca prosperidade na qual a desigualdade e a incerteza estão em altas. A vantagem da incerteza é que quando você consegue combatê-la, você consegue melhorar a situação de todo mundo. Se baixarmos a incerteza eleitoral, climática, pode melhorar, mas é um cenário complexo."

Aumento de ambulantes nas ruas de Salvador foi registrado com a pandemia de COVID-19 e o desemprego. Salvador, BA, 3 de agosto de 2021
© FOLHAPRESS / ROMILDO DE JESUS
Aumento de ambulantes nas ruas de Salvador foi registrado com a pandemia de COVID-19 e o desemprego. Salvador, BA, 3 de agosto de 2021

Redistribuição de renda e inflação

Ao ser questionado sobre o auxílio emergencial – assim como outras políticas de redistribuição de renda –, se o mesmo pode aumentar a inflação dentro do contexto da estagflação, Neri responde que, em termos fiscais, "auxílios como o Bolsa Família, por exemplo, respondem a 0,5% do PIB, diferente dos 14% da previdência".

Portanto, "se focalizarmos esses auxílios 'nos pobres', não custa tanto. O que há, é uma questão institucional".

"A série de pobreza mostra que quando foi instituído [o auxílio] a pobreza caiu muito em relação ao período antes da pandemia, depois quando reduziu o montante dado para metade a pobreza triplicou, foi para 16%, agora com a volta do auxílio menor, porém maior que o Bolsa Família, a pobreza caiu para um nível acima do que tinha antes da pandemia, está em 13% [antes era 11%], ela flutuou muito."

Neri ainda destaca que "estamos em uma situação que não temos fonte de financiamento clara para os programas sociais, então qualquer estratégia acaba gerando sinais que não são bem-vindos pelo mercado", o que dá essa impressão que a inflação pode disparar devido aos auxílios.

"O Brasil foi generoso, apesar de não seguir a cartilha do ministro da Economia [Paulo Guedes], foi um dos mais generosos dos emergentes, no entanto, a nossa pandemia foi forte e talvez o recurso não tenha sido bem aplicado."

Movimentação em agência da Caixa Econômica Federal, no centro de São Paulo, para saque da última parcela do auxílio emergencial
© FOLHAPRESS / RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS
Movimentação em agência da Caixa Econômica Federal, no centro de São Paulo, para saque da última parcela do auxílio emergencial

O diretor diz que "a situação de pobreza não deveria ser um problema em condições normais", porém, enfatiza que "há uma armadilha na qual os pobres são os primeiros da fila a sofrer o ajuste fiscal porque não tem garantia nenhuma" e cita que a Saúde, Educação e a Previdência são setores que têm "proteção", mas a Assistência Social não.

Neri também sinaliza que com o ano eleitoral em 2022, "todas as volatividades tendem a ficar bem mais sérias para o futuro".

Soluções econômicas para estagflação

Para contornar esse quadro, principalmente por se tratar de uma estagflação em um país em desenvolvimento, o especialista aponta que o primeiro ponto é ter credibilidade no mercado, "pois não estamos com muita credibilidade no momento".

Outro ponto seria adotar algumas políticas de renda, "já que temos uma longa tradição nisso, como o próprio plano Real", entretanto, elucida que tal estratégia cria "incertezas".

"Brasil foi o país que teve a maior inflação no mundo entre 1970 a 1995, então temos histórico com esse assunto. No entanto, é um jogo meio complicado, porque se faz um plano de estabilização, melhora na hora, mas depois podem vir complicações."

Neri sublinha que para superar a estagflação é necessária "boa credibilidade, política de geração de emprego e decisões sensatas", destacando que um "bom programa social não é necessariamente muito custoso se for focado".

Fila de pessoas no açougue localizado no bairro CPA II, em Cuiabá, que distribuiu ossinhos para população há dez anos. A procura por ossos apesentou aumento significativo pelo elevado desemprego, aumento generalizado dos preços e a pandemia, Cuiabá-MT, 22 de julho de 2021
© FOLHAPRESS / FRANCISCO ALVES
Fila de pessoas no açougue localizado no bairro CPA II, em Cuiabá, que distribuiu ossinhos para população há dez anos. A procura por ossos apesentou aumento significativo pelo elevado desemprego, aumento generalizado dos preços e a pandemia, Cuiabá-MT, 22 de julho de 2021

Classe média

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostrou que a classe média teve uma queda expressiva de renda de quase 9%. Se políticas centradas nesta parcela da população (no intuito de investir na volta do consumo dessa classe visando a recuperação econômica) poderiam ser uma solução para o problema, o diretor afirma que sim, "mas por razões mais de mercado".

"Não temos recurso, teremos que fazer uma 'escolha de Sofia', se resolvermos gastar o dinheiro com os mais pobres, o que seria a solução. Mas se jogarmos 'dinheiro de helicóptero' para classe média, se for recursos fiscais, o Brasil já tem uma situação fiscal delicada e esse é uma questão."

O especialista também chama atenção para fato de que "agora existe o 'canto da sereia' do ano eleitoral […] o presidente não está muito popular, se ele resolver gastar para ficar popular, uma técnica utilizada [por políticos] no Brasil nos últimos 30 anos, pode ser que a eleição seja um bom período, mas o pós-eleitoral não seja". "Está tendo solução para 2022, mas como você financia depois?", indagou.

Pessoas fazem compra em supermercado de classe média em São Paulo, 31 de agosto de 2021
© FOLHAPRESS / MATHILDE MISSIONEIRO
Pessoas fazem compra em supermercado de classe média em São Paulo, 31 de agosto de 2021

Na quarta-feira (9), a inflação no Brasil teve alta recorde no preço de combustíveis e alimentos para o mês de agosto, e atingiu números que não eram vistos há 21 anos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,87% ante julho, acima da alta de 0,71% esperada por economistas.

A gasolina acumulou aumento de 31,09% e a alimentação em domicílio teve alta de 0,78% para 1,63%, conforme noticiado. Esses itens são essenciais na vida da população e seus preços inflacionados impulsionam o alargamento do contexto da pobreza.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik


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