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sábado, 9 de janeiro de 2021

APÓS QUASE MORRER: Pastor que negava gravidade da pandemia muda de ideia depois de 'vale da sombra da morte'

 


O cenário fúnebre descrito na Bíblia virou uma experiência que ele encara como "totalmente real". "Era um lugar tenebroso, mas eu não sentia medo. Escuro para todos os lados, a única coisa clara era onde eu pisava, [o chão era] como um verme gigantesco com pelos, que se movimentava como esteira rolante de aeroporto." Dinho quase morreu. Duas vezes. O que era para ser uma gripezinha, conta à reportagem, "complicou bastante". Passou 51 dias na UTI de um hospital de Campo Grande (MS), onde foi intubado, submetido a uma traqueostomia e isolado após "virar um perigo para os outros pacientes" –teve dois choques sépticos quando contraiu "a pior bactéria hospitalar".


Também sofreu um enfisema que fez o ar vazar dentro do corpo. "Ficou tudo inflado do abdome para cima." Murcha ficou sua impressão de que a doença que lhe fez perder um terço dos 90 kg que tinha antes da internação não era nada demais. Em dezembro, voltou à sua igreja, Ministério Atos de Justiça, e lá admitiu: "Menosprezei um pouco a capacidade de contágio e até a gravidade da enfermidade, achando que, se tivesse Covid, seria, assim, uma gripe, e que no máximo eu ficaria distanciado da igreja por 15 dias".


Dinho retornou ao púlpito mais de cem dias depois e nele elencou o que hoje considera "avaliações erradas que fiz sobre o período da pandemia". Para começo de conversa, acha que a certa altura deu "uma relaxada". Outro equívoco: minimizar a importância do protocolo recomendado por infectologistas. "Cheguei a ficar com raiva da máscara, [dizer] 'estão colocando cabresto social nas pessoas'."


O líder evangélico agora recorre às Escrituras, mais precisamente ao livro de Levítico, que fala sobre "a praga da lepra", para defender as medidas sanitárias. Na passagem, Deus diz que cabe a sacerdotes avaliarem pústulas e estipularem um período de isolamento. "Quem ficar leproso, apresentando quaisquer desses sintomas, usará roupas rasgadas, andará descabelado, cobrirá a parte inferior do rosto e gritará: 'Impuro! Impuro!'. Enquanto tiver a doença, estará impuro. Viver á separado, fora do acampamento", diz trecho do Antigo Testamento. "Distanciamento social e máscara são bíblicos. Há 3.500 Deus já estava nos ensinando isso", afirma Dinho.


Ainda continua imunizado, contudo, contra a esquerda. Inclusive acha que há interesses econômicos por trás da disseminação global do vírus, e progressistas teriam tudo a ver com isso. "Vocês nunca viram o sr. [Bill] Gates de máscara, nem George Soros. Vocês não vão ver. Existe manipulação? Existe", afirma, evocando uma teoria da conspiração sem qualquer lastro factual (ou seja, fake news).


O pastor não sabe como contraiu o coronavírus. Talvez na igreja, talvez quando acompanhou, por dois dias, a esposa no hospital –ela foi trocar uma prótese. Primeiro sintoma: dor nas costas. Logo vieram febre e diarreia. Ele conta que tomou o "kit Covid", que contém remédios como ivermectina e cloroquina, com eficácia questionada pela maior parte da comunidade científica. "Se existe possibilidade de fazer bem, por que não tomar? O problema dessa medicação é que a discussão se tornou ideológica. Mal não me fez."


Também não ajudou. Aos 57 anos e com zero histórico de comorbidades, ele pegou uma das manifestações mais virulentas da moléstia. Dinho considera seu aniversário, em dezembro, um renascimento. Hoje, diz, "vivo pela fé, mas sou zeloso com cuidados na saúde".


Continuará pregando, até porque "tem que cuidar também da alma e do espírito, e nisso a igreja é fundamental, é necessário que as pessoas tenham esse tipo de apoio para o espírito sem descuidar do cuidado com corpo". Cultos lotados e com fiéis desmascarados, porém, estão descartados. Algum conselho para Jair Bolsonaro, o presidente que em diversas ocasiões incentivou aglomerações e diminuiu a magnitude da pandemia? Dinho diz que não. Gosta dele.

 


Antes, afirma: "Covid não é questão política, é de saúde. O vírus não é de direita nem de esquerda. Existe um exagero, uma polarização. É ruim tanto para um lado quanto para o outro. Entendo que questão econômica é fundamental. O Brasil estaria há um ano sem gerar renda se fosse fazer a vontade dos extremistas."

Anna Virginia Balloussier - Folhapress

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O boato que negava a morte de uma jovem de 16 anos em São Paulo



Divulgação de certidão de óbito de influenciadora de SP que tinha 1 milhão de seguidores gerou ainda mais incertezas. Após boatos que negavam a sua morte, família foi obrigada a se pronunciar. "Não imaginávamos essa repercussão em algo tão doloroso"


Por Felipe Oliveira, Revista Tilt
A influenciadora digital Daiany Ayumi Hiraga, 16 anos, conhecida como Dai Ayumi, morreu no dia 8 de abril, deixando mais de 900 mil seguidores no Instagram — a conta já ultrapassa um milhão após a publicação deste texto. Nesta semana, muitos fãs da blogueira começaram a duvidar da história no Twitter, afirmando ter visto vídeos e fotos dela no dia da morte. Mas, a família confirmou o óbito.
Com a repercussão, a família de Dai precisou desmentir os boatos. “A Dayani gostava de viver essa vida de Instagram, estava vivendo um sonho. Quando aconteceu, achamos que ia ser uma morte como em todas as famílias normais. Não imaginávamos essa repercussão em algo tão doloroso. Nós seríamos os primeiros a querer que ela estivesse viva”, afirmou Bruna Lee, tia da influenciadora.
Bruna chegou a postar o atestado de óbito da sobrinha nas redes sociais para confirmar a morte, mas a atitude levou a mais teorias da conspiração, já que o documento, além de ter alguns erros de português, trazia a causa da morte como “indeterminado (portaria – SS32 – covid-19)”.
A família diz que sequer percebeu os erros na certidão quando receberem o documento. “Nem reparamos nessas coisas escritas errado. Minha irmã mandou o corpo para um crematório em Piracicaba, e veio ‘Piracibaca’, erraram na hora de digitar. Isso não significa que é falso”, disse.
Ao programa “Cidade Alerta”, da TV Record, o cartório que registrou a certidão afirmou que corrigiu o erro de digitação da palavra Piracicaba e pediu um ajuste no sistema que grafou “supultamento” no lugar de sepultamento.
Sobre a causa da morte, Bruna disse que a sobrinha fez diversos exames quando foi levada ao hospital — incluindo Covid-19, toxicológico e gravidez. Todos deram negativo.
A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo disse que esclareceu o preenchimento da certidão de óbito diretamente à mãe da jovem nesta quinta-feira (16).
O campo é preenchido com “indeterminado (portaria – SS32 – Covid-19)”, porque este é um procedimento adotado após resolução que entrou em vigor em 20 de março, que aponta que “em situação de pandemia, quaisquer corpos podem ser considerados de risco para contaminação e difusão do vírus”.

Suspeita

Apesar de não ter o diagnóstico concreto da causa da morte, a família suspeita que tem a ver com um problema neurológico que desenvolveu uma hidrocefalia.
“No ano novo, ela [Dai] foi para casa de minha mãe, na Praia Grande. Naquele dia, começou a reclamar de pequenas dores de cabeça. Minha mãe dava remédio e passava. Quando chegou março, ficou tão insuportável que ela não conseguia nem falar e nem andar”, relata Bruna. Após a piora, Dai Ayumi foi levada ao hospital, onde realizou diversos exames.
Após os resultados, a jovem foi encaminhada para casa, mas seu estado de saúde piorou. “Quando ela voltou para casa, teve um colapso de dor muito grande, como se fosse um derrame, e ficou paralisada em cima da cama, virando apenas os olhos. A família percebeu que era muito grave”, contou.
Com a piora, Dai voltou ao hospital. “Ela estava com um líquido no cérebro, e os médicos não sabiam explicar como isso aconteceu. Decidiram fazer uma cirurgia cerebral para ver se encontravam algo”. Após alguns dias internada, a menina morreu.

Mensagens

Alguns usuários do Twitter têm compartilhado supostas conversas de Dai Ayumi, após o relato da morte, em que ela diz estar viva. Sobre as mensagens, a tia da influenciadora lamenta: “A gente tenta esquecer, e as pessoas não deixam, fazendo piadinhas maldosas”, disse. “Vamos manter o respeito, parar de brincar com morte, porque não é brincadeira, o sentimento é real.”
A tia afirma ter imagens de Dai doente, mas não vai divulgar as fotos apenas para confirmar para algumas pessoas a doença da sobrinha.
“Não acho justo termos de mostrar essas fotos para provar. São imagens fortes, nem parece ela. Depois da cirurgia ela ficou muito mais magra, com a cabeça raspada. Não gosto nem de lembrar”, finaliza.

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