Total de visualizações de página

Leitores online

Mostrando postagens com marcador miliciano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador miliciano. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de abril de 2022

Áudio e mensagens reforçam elo entre o clã Bolsonaro e o miliciano Adriano da Nóbrega

 


O áudio em que a viúva do ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega, Júlia Lotufo, afirma que Danielle Mendonça da Nóbrega —a primeira mulher do ex-capitão do Bope —foi funcionária fantasma no gabinete do então deputado estadual pelo Rio de Janeiro, e recebeu R$ 776 mil em salários durante os 11 anos em que ficou lotada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) reforçam a ligação entre o clã Bolsonaro e o ex-PM, morto durante uma suposta troca de tiros ao tentar fugir de um cerco policial na Bahia.

No áudio obtido pela Folha de S.Paulo, Júlia Lotufo diz que a primeira mulher de Adriano recebia salário sem trabalhar. A interceptação foi feita durante as investigações que resultaram na Operação Gárgula, deflagrada pelo MP-RJ em março de 2021, mês seguinte à morte de Adriano por policiais na Bahia.

"Ela foi nomeada por 11 anos. Onze anos levando dinheiro, R$ 10 mil por mês para o bolso dela. E agora ela não quer que ninguém fale no nome dela? [...] Bateram na casa dela porque a funcionária fantasma era ela, não era eu", diz Júlia em um áudio capturado durante uma escuta policial da Operação Gárgula, realizada há cerca de dois anos atrás e  divulgada esta semana pela Folha de S. Paulo. 

“Segundo o MP-RJ, parte da remuneração de Danielle na Alerj foi encaminhada a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, o que consiste na prática da rachadinha, de acordo com promotores”, ressalta o UOL.

As investigações apontam que Danielle transferiu de sua conta para Queiroz R$ 34,6 mil, além de ter sacado outros R$ 15,6 mil em espécie. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, as contas controladas por Adriano também repassaram a Queiroz mais R$ 115,6 mil. Um outro elo que reforça a ligação entre os Bolsonaro e o miliciano é o fato de que  Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-capitão. O MP sustenta que ela também era funcionária fantasma.

Além disso, “mensagens trocadas entre Danielle e Queiroz indicam que a família Bolsonaro temia que o vínculo dela —então empregada no gabinete de Flávio na Alerj— com o homem apontado como chefe de milícia prejudicasse suas campanhas eleitorais em 2018”, ressalta a reportagem. 

“A conversa ocorreu em 5 de dezembro de 2017, dez meses antes de Jair Bolsonaro se eleger presidente e Flávio senador pelo Rio. Os dois já eram pré-candidatos a essa altura. Queiroz procura Danielle e diz que precisava conversar com ela. A funcionária, nomeada desde 2007 no gabinete de Flávio, pergunta: "É conversa boa ou ruim". Sem citar nominalmente, Queiroz então demonstra que havia preocupação por parte do clã Bolsonaro de que o vínculo dela com Adriano se tornasse público. "sobre seu nome... não querem correrem risco, tendo em vista que estão concorrendo e visibilidade que estão", afirma Queiroz, de acordo com a reportagem.

Em uma outra mensagem, Queiroz justifica o temor ao escrever que  "estão fazendo um pente fino nos funcionários e família deles". 

sábado, 2 de abril de 2022

Advogado de viúva do miliciano Adriano da Nóbrega se candidata a deputado pelo partido de Bolsonaro

 


O advogado que defende a viúva do miliciano Adriano da Nóbrega vai se candidatar a deputado estadual no Rio de Janeiro pelo Partido Liberal (PL), o mesmo pelo qual o presidente Jair Bolsonaro tenta sua reeleição, segundo apurou a Sputnik Brasil com exclusividade neste sábado (2).

Márcio Archanjo Ferreira Duarte, que informou representar Júlia Lotufo, já requereu sua filiação partidária, conforme registra uma ficha interna da legenda, à qual a reportagem teve acesso.
Procurado pela Sputnik Brasil, o defensor não se manifestou acerca do ingresso na sigla, tampouco a respeito da candidatura.
Márcio Archanjo, que defende Júlia Lotufo, viúva do miliciano Adriano da Nóbrega.  - Sputnik Brasil, 1920, 02.04.2022
Márcio Archanjo, que defende Júlia Lotufo, viúva do miliciano Adriano da Nóbrega.
Lotufo é viúva de Adriano Magalhães da Nóbrega, paramilitar e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Apontado como chefe do Escritório do Crimegrupo de milicianos e assassinos que matam por encomenda na capital fluminense, ele é um dos investigados no atentado contra a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018 em uma emboscada ocorrida na região central do Rio.
O duplo assassinato da parlamentar e de seu condutor foi o estopim que desencadeou uma apuração sobre as atividades criminosas de capitão Adriano a partir de outubro de 2018.
A vereadora Marielle Franco (PSOL) durante entrega da medalha Chiquinha Gonzaga, no Dia Internacional da Mulher. - Sputnik Brasil, 1920, 14.03.2022
Notícias do Brasil
Assassinato de Marielle Franco completa 4 anos sem as principais respostas
Um mandado de prisão foi expedido em janeiro do ano seguintequando o miliciano se tornou foragido.
Ele foi localizado mais de um ano depois e morto em uma operação policial em 9 de fevereiro de 2020 na Bahia, em circunstâncias que ainda não foram totalmente esclarecidas pelas autoridades locais.
Nóbrega mantinha ligações estreitas e oficiais com o clã Bolsonaro: sua ex-mulher e sua mãe foram nomeadas e empregadas no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho Zero Um do presidente, quando ele era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Elas foram exoneradas logo após a eleição do atual chefe do Executivo, no final de 2018.
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) acusou ambas de serem funcionárias-fantasmas do gabinete de Flávio. Segundo a promotoria, elas repassavam a maior parte do salário recebido pelos cofres públicos a um esquema de corrupção cujo beneficiário era o filho do presidente.
Além disso, o próprio chefe do Executivo, então deputado federal, defendeu o miliciano no plenário da Câmara dos Deputados em 2005.
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia do Dia do Marinheiro, no Grupamento dos Fuzileiros Navais, em Brasília - Sputnik Brasil, 1920, 18.02.2020
Notícias do Brasil
Bolsonaro pede 'perícia independente' sobre morte de miliciano na Bahia
Na ocasião, capitão Adriano tinha sido preso sob acusação de ter assassinado o guardador de carros Leandro dos Santos Silva, de 24 anos. Então policial, Nóbrega foi condenado no Tribunal do Júri fluminense no final de 2005.
Em meio ao processo penal, ele foi homenageado com a Medalha Tiradentes, honraria mais importante do Estado do Rio de Janeiro, por Flávio Bolsonaro.
No mesmo período, segundo Italo Ciba, ex-vereador do Rio de Janeiro e ex-PM, confirmou ao jornal O Globo em 2020 que Flávio Bolsonaro visitou o miliciano Adriano da Nóbrega na prisão para lhe prestar apoio.
Prisão de Fabrício Queiroz - Sputnik Brasil, 1920, 03.07.2020
Notícias do Brasil
Esposa de Queiroz tinha caderno com telefones de Jair, Flávio e Michelle Bolsonaro
Júlia Lotufo é ré por lavagem de dinheiro do marido morto e fazia a sua contabilidade de quase R$ 2 milhões mensais.
Ela ingressou com um pedido de delação premiada no ano passado. Porém, as autoridades do Rio viram inconsistências em seu depoimento e rejeitaram suas alegações no começo deste ano.
A viúva de Adriano está em regime de prisão domiciliar, monitorada por uma tornozeleira eletrônica.
O advogado Frederick Wassef, ligado à família Bolsonaro, durante cerimônia de posse no Palácio do Planalto. - Sputnik Brasil, 1920, 05.07.2020
Notícias do Brasil
Wassef acredita que 'poderosos políticos do Rio' queriam matar Queiroz, diz jornal

Quem é o advogado da viúva de Adriano

Assumidamente bolsonarista, Márcio Archanjo Ferreira Duarte é ex-fuzileiro naval, segundo a revista Veja.
Ele já advogava para o novo marido de Júlia Lotufo, Eduardo Giraldes, dono da empresa de azeites Royal, que ficou conhecida por patrocinar grandes clubes de futebol do Rio com projeção internacional.

A viúva do capitão Adriano

Júlia Lotufo, por sua vez, é acusada de lavar dinheiro dos crimes cometidos pelo miliciano e capitão expulso da PM do Rio.
Em mensagens capturadas por investigadores, ela contabiliza os lucros da organização criminosa: uma cifra de mais de R$ 1,8 milhão, segundo o MP fluminense.
Planilha de cálculos dos crimes do miliciano Adriano da Nóbrega era gerida por sua viúva Júlia Lotufo.   - Sputnik Brasil, 1920, 02.04.2022
Planilha de cálculos dos crimes do miliciano Adriano da Nóbrega era gerida por sua viúva Júlia Lotufo.
O problema, no entanto, é que muitas das anotações estão cifradas: não se sabe, exatamente, a origem dos pagamentos escusos recebidos pelo miliciano, que acumulou uma lucrativa fortuna ao longo de suas atividades paramilitares.
Após a morte do miliciano próximo ao clã Bolsonaro em fevereiro de 2020, sua herança foi ferozmente disputada.
A briga pelo espólio milionário criminoso do miliciano levou à execução do seu braço-direito do crime no ano seguinte, conforme revelou a revista Veja.
Coincidentemente, o policial militar executado em março do ano passado também foi homenageado com a medalha mais importante do Estado na Assembleia Legislativa do Rio pelo primogênito de Bolsonaro, o então deputado estadual Flávio.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Polícia prende na Paraíba miliciano suspeito de ser o mandante do assassinato de Marielle Franco

 


A Polícia Civil da Paraíba prendeu nesta quarta-feira (28) um chefe de milícia acusado de mandar matar a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018. 

Apesar do nome do miliciano não ter sido revelado pelas autoridades, o Congresso em Foco afirma se tratar de Almir Rogério Gomes da Silva, chefe da milícia da Gardênia Azul e do Morro do Tirol.

A prisão foi realizada por policiais da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), no município de Queimadas, a cerca de 140 km de João Pessoa, capital paraibana. A operação foi um pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), responsável por investigar a morte de Marielle.

Almir Rogério Gomes da Silva estaria na companhia de outro homem, que também foi preso. A operação atendeu a um pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), que investiga o caso.

A polícia teria chegado ao nome de Almir por meio de delação de Julia Lotufo, viúva de Adriano da Nóbrega, morto pela polícia no interior da Bahia no início de 2020.

Segundo o delegado Diego Beltrão, Almir é "um criminoso muito perigoso, com indícios fortes de que estava traficando drogas e planejando ataques a instituições financeiras no nosso estado”.

Fonte 247

sábado, 24 de abril de 2021

Grampos sugerem que amigos do miliciano Adriano da Nóbrega recorreram a Bolsonaro

 


Por Sérgio Ramalho, Intercept Brasil - Diálogos transcritos de grampos telefônicos sugerem que o presidente Jair Bolsonaro foi contactado por integrantes da rede de proteção do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe da milícia Escritório do Crime. As conversas fazem parte de um relatório da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Polícia Civil do Rio elaborado a partir das quebras de sigilo telefônico e telemático de suspeitos de ajudar o miliciano nos 383 dias em que circulou foragido pelo país.

Logo após a morte do miliciano, cúmplices de Adriano da Nóbrega fizeram contato com “Jair”, “HNI (PRESIDENTE)” e “cara da casa de vidro”. Para fontes do Ministério Público do Rio de Janeiro ouvidos na condição de anonimato, o conjunto de circunstâncias permite concluir que os nomes são referências ao presidente Jair Bolsonaro. “O cara da casa de vidro” seria uma referência aos palácios do Planalto, sede do Executivo federal, e da Alvorada, a residência oficial do presidente, ambos com fachada inteiramente de vidro.

Após as citações, o Ministério Público Estadual pediu que a justiça encerrasse as escutas dos envolvidos nas conversas, apesar de eles seguirem trocando informações sobre as atividades ilegais de Adriano da Nóbrega. A interrupção reforça a ideia de que trata-se do mesmo Jair que hoje ocupa o Planalto. O MP estadual não pode investigar o presidente da República. Em casos deste tipo, tem a obrigação constitucional de encerrar a investigação e encaminhar o processo à Procuradoria Geral da República, que tem esse poder. Questionada pela reportagem, a PGR não informou se recebeu ou não a investigação do MP do Rio até a publicação desta reportagem.

O Intercept já havia reportado sobre as escutas em fevereiro, quando mostramos como Adriano dizia que “se fodia” por ser amigo do presidente da República, e em março, quando detalhamos a briga pelo espólio deixado pelo ex-caveira. As referências a “Jair” e “cara da casa de vidro” constam em novos documentos recebidos pela reportagem, que, em conjunto com as escutas anteriores, permitem entender a amplitude das relações do miliciano e da rede que lhe deu apoio no período em que passou foragido.

Adriano da Nóbrega fugia da justiça desde janeiro de 2019, quando o Ministério Público do Rio pediu a sua prisão, acusando-o de chefiar a milícia Escritório do Crime, especializada em assassinatos por encomenda. Ex-integrante da elite do batalhão de elite da Polícia Militar do Rio, ele foi expulso da corporação em 2014 por relações com a máfia do jogo do bicho.

As conversas de apoiadores do miliciano com supostas referências ao presidente começaram a aparecer nos grampos a partir do dia da morte de Adriano, em 9 de fevereiro de 2020, e continuaram por mais 11 dias. No dia 9 pela manhã, o miliciano foi cercado por policiais do Rio e da Bahia, quando se escondia no sítio do vereador Gilson Batista Lima Neto, o Gilsinho de Dedé, do PSL, em Esplanada, cidade a 170 quilômetros de Salvador. Segundo os agentes, o miliciano reagiu a tiros a ordem de se render. Os policiais reagiram e mataram Adriano com dois tiros.

‘Cara da casa de vidro’

De acordo com as transcrições, a primeira ligação supostamente feita ao presidente aparece no dia 9 de fevereiro de 2020 à noite, horas depois que Adriano foi morto. Ronaldo Cesar, o Grande, identificado pela investigação como um dos elos entre os negócios legais e ilegais do miliciano, diz a uma mulher não identificada (MNI, no jargão policial) que ligaria para o “cara da casa de vidro”. No telefonema, demonstra preocupação com pendências financeiras e diz que alertou Adriano que “iria acontecer algo ruim”. Ele fala ainda que quer saber “como vai ser o mês que vem” e que a “parte do cara tem que ir”.

Identificado pela polícia como ele entre os negócios legais e ilegais do miliciano, Grande diz que vai “ligar para o cara da Casa de Vidro”.

Quatro dias após a morte de Adriano, em 13 de fevereiro de 2020, Grande fala com um homem supostamente não identificado (HNI), que tem ao lado, entre parênteses, a descrição “PRESIDENTE” em letras maiúsculas, e relata problemas com a família de Adriano devido à divisão de bens. O interlocutor se coloca à disposição caso ele venha a ter algum problema futuro. Apenas duas frases do diálogo de 5 minutos e 25 segundos foram transcritas.

Polícia identifica interlocutor que conversa com comparsa de Adriano como “PRESIDENTE”.

No mesmo dia 13, o nome “Jair”  aparece em conversas de outros comparsas de Adriano – o pecuarista Leandro Abreu Guimarães e sua mulher, Ana Gabriela Nunes. O casal, segundo as investigações, escondeu Adriano da Nóbrega numa fazenda da família nos arredores de Esplanada após ele ter conseguido escapar ao cerco policial a uma luxuosa casa de praia na Costa do Sauípe, no litoral baiano, em 31 de janeiro de 2020.

Num dos diálogos, de pouco mais de cinco minutos, Ana Gabriela relata a uma interlocutora identificada apenas como “Nina” que “a polícia retornou com o promotor” a sua casa e que não pretende voltar para lá por causa dos jornalistas. Na sequência, diz: “Leandro está querendo falar com Jair”.

Após a morte do miliciano, Ana Gabriela diz a uma interlocutora identificada apenas como Nina que o esposo, Leandro Guimarães, quer falar com Jair, numa possível referência ao presidente.

Leandro Guimarães é descrito pelos policiais como um vaqueiro premiado, que ganha a vida organizando e participando de rodeios. Foi num desses eventos que o ex-capitão comprou 22 cavalos de raça mesmo estando foragido da justiça.

Minutos depois, Ana Gabriela faz outra ligação. O telefonema iniciou às 8h50 e terminou às 8h51. No campo de comentários, o documento sugere que o diálogo aconteceu entre Gabriela e Jair. A conversa, contudo, não é transcrita na íntegra. Os analistas apenas reproduzem a mesma frase destacada anteriormente: “Gabriela diz que Leandro quer falar com Jair”.

No campo de comentários, o documento sugere que o diálogo aconteceu entre Ana Gabriela e Jair.

Logo após os episódios, o analista da Polícia Civil sugere que não sejam renovados os grampos do casal. O mesmo acontece com Grande, que, pelo teor dos telefonemas, segue tratando dos negócios de Adriano da Nóbrega e chega a ser chamado de “chefe” em uma das interceptações. O Ministério Público Estadual do Rio, que não tem atribuição para investigar suspeitas sobre o presidente da República, aceitou a recomendação. O mesmo procedimento já havia sido adotado depois que Orelha e a irmã de Adriano citaram Bolsonaro em seus telefonemas, como mostramos em fevereiro no Intercept.

Questionamos o Ministério Público Estadual sobre o porquê das escutas dos suspeitas terem sido encerradas após as menções ao “homem da casa de vidro”, a “Jair” e “HNI (PRESIDENTE)” e, sobretudo, se a instituição remeteu à Procuradoria-Geral da República as suspeitas da ligação dos suspeitos
com o presidente Jair Bolsonaro. Não recebemos nenhum retorno até a publicação desta reportagem.

Por favor, preste atenção: esta reportagem faz parte de uma série de matérias baseadas nas escutas que o MP realizou enquanto investigava o miliciano Adriano da Nóbrega. Apesar das escutas, o processo foi paralisado. Ele voltou a andar depois que começamos a investigar. O Intercept quer continuar contando essa história porque ela pode mudar os rumos do país. Precisamos da ajuda dos nossos leitores para isso. → Clique e contribua com qualquer valor. 

‘Muito fiscalizado’

O nome do presidente já havia sido citado anteriormente em diálogos da irmã de Adriano, Tatiana da Nóbrega, e do sargento da PM Luiz Carlos Felipe Martins, o Orelha, um dos homens de confiança do miliciano, como revelou o Intercept em março. Ao dizer a um interlocutor não identificado que “Adriano falava que se fodia por ser amigo do presidente da República”, Orelha acendeu a luz amarela entre policiais e promotores envolvidos na perseguição ao ex-capitão. “Essa luz passou a piscar vermelha no decorrer da análise das escutas e transcrição das conversas dos suspeitos de proteger o miliciano foragido enquanto o cerco se fechava”, me disse um dos envolvidos na investigação sob a condição de anonimato.

Para os investigadores, o conteúdo das novas transcrições sugere que a amizade entre o miliciano e o presidente não seria mera bravata entre os seus comparsas. Os Bolsonaro têm uma relação antiga com o ex-caveira. Em 2005, enquanto estava preso preventivamente pelo assassinato de um guardador de carros, Adriano foi condecorado pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro com a medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj. Uma semana após a morte do miliciano, em 15 de fevereiro de 2020, o presidente Bolsonaro o chamou de “herói” e afirmou que recomendou pessoalmente que o filho desse a medalha ao então policial. Flávio ainda empregou a mãe e a ex-mulher de Adriano em seu gabinete na Alerj, situação hoje investigada no inquérito das Rachadinhas.

Embora o ex-capitão usasse uma identidade falsa em nome de Marco Antônio Cano Negreiros, trechos das transcrições das quebras de sigilo mostram que todos os suspeitos ligados à rede de proteção de Adriano da Nóbrega sabiam que ele era foragido.

Em um diálogo captado em 7 de fevereiro, dois dias antes da operação que resultou na morte do ex-capitão, Ana Gabriela diz à mãe que não pode dar maiores explicações por telefone. A mãe então pergunta: “o rapaz está aí com você?” Ela reage com nervosismo e desconversa: “Não adianta que não vou dizer onde o rapaz está. Ele está em Esplanada com o Leandro”. A mãe insiste e acrescenta: “Graças a Deus que vocês não estavam na Costa do Sauípe. Esse rapaz não poderia estar por aqui. Ele está sendo muito fiscalizado”, concluiu.

Trecho de uma conversa entre Ana Gabriela e a mãe em que ela diz que o “rapaz”, que a polícia entende ser Adriano, está em Esplanada (BA) com o marido.

Antes de se refugiar no sítio do vereador Gilsinho de Dedé, em que acabou sendo morto, e na fazenda do casal Leandro e Gabriela, o ex-oficial do Bope contou ainda com a ajuda de uma prima e de outro fazendeiro da região. As escutas dão a entender que a veterinária Juliana Magalhães da Rocha, que trabalhava como tratadora dos cavalos e das cabeças de gado do miliciano, chegou a alugar um carro que foi usado na fuga do ex-capitão do litoral baiano para o interior do estado. Já o fazendeiro Eduardo Serafim, proprietário de um rancho em Itabaianinha, na divisa de Sergipe com a Bahia, abrigou parte dos animais do chefe do Escritório do Crime.

É na fazenda de Serafim que ficavam os 22 cavalos de raça comprados por Adriano. Nas transcrições, a polícia sugere que Adriano ou a atual esposa Julia Lotufo visitaram o local.

Mesmo com provas robustas de que ajudaram Adriano na fuga, nem o casal Leandro e Gabriela, nem o vereador Gilsinho, a veterinária Juliana ou o fazendeiro Serafim foram denunciados à justiça pelo MP do Rio. Procurada pela reportagem, a instituição não explicou porque preferiu deixá-los de fora da denúncia.

Uma investigação pegando poeira

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, do MP do Rio, levou 406 dias para denunciar parte da rede de apoio ao miliciano. A operação Gárgula foi posta em prática após o Intercept ter revelado a disputa em torno dos bens do miliciano, em 19 de fevereiro deste ano. No mesmo dia da publicação da reportagem, o MP denunciou à 1ª Vara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça nove dos 32 suspeitos.

Apesar das evidências de que a mãe de Adriano, suas irmãs Tatiana e a sua ex-mulher também se beneficiaram do dinheiro ilegal acumulado pelo miliciano, o MP optou por levar à justiça apenas a então companheira do miliciano, Júlia Lotufo, e os policiais militares Rodrigo Bittencourt Rego e Orelha. Os três tiveram as prisões decretadas a pedido dos promotores.

No dia seguinte ao pedido de prisão, Orelha sofreu uma emboscada em frente de sua casa, em Realengo, na zona oeste do Rio e foi morto a tiros de fuzil. Dois dias depois, o coordenador do Gaeco, promotor Bruno Gangoni, aventou a possibilidade de o crime ter sido queima de arquivo, mas sem dar maiores esclarecimentos. Um dos principais aliados de Adriano, o PM poderia ter informações fundamentais para o desenrolar de investigações relacionadas às Rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro e à morte de Marielle, em que há fortes suspeitas do envolvimento do Escritório do Crime.

O Intercept questionou o MP sobre quem seriam os beneficiados com a morte do policial-miliciano e o motivo da denúncia não ter incluído os nomes dos integrantes da família de Adriano e seus aliados na Bahia. Mais uma vez, não obteve resposta até a publicação desta reportagem. A Presidência da República também não nos respondeu se o presidente entrou ou não em contato com comparsas do miliciano logo após a sua morte.

Colaboraram com a reportagem Paula Bianchi e Guilherme Mazieiro.

Minha lista de blogs